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domingo, 29 de julho de 2012

ESPIRITUALIDADE


"Quanto mais nos elevamos, mais pequenos parecemos a aqueles que não sabem voar."


Nietzsche

Pensamentos

"Uma coletânea de pensamentos é uma farmácia moral onde se encontram remédios para todos os males."

Voltaire
O ATAQUE DOS GAFANHOTOS


A memória comunitária mantém viva os acontecimentos ligados ao ataque de gafanhotos que, em forma de nuvens, atacaram o Sul do Brasil. A voracidade do inseto de imediato salientava-se e os vegetais acabavam devorados num ritmo assustador. O avanço do ortóptero constituía-se numa realidade comum até a década de 40 do século XX e, aos olhos da atualidade, descrevia uma cena inimaginável. Teutônia não se viu privada de insetos saltadores que, como consequência, descreviam um quadro de devastação e fome. Animais e homens, após a partida, deparavam-se com a "terra arrasada".
A colônia de Teutônia, nos anos de 1906 e 1948, viveu uma tragédia incomum que ligou-se ao ataque do gafanhoto-de-praga (Schistocerca paranaensis). A agricultura e pastoreio viu-se devastada, quando os potreiros acabavam digeridos pela praga. O avanço dos insetos descrevia uma cena ímpar, quando o céu escurecia e o sol desaparecia em função da quantidade de invasores. O sunido, em meio à invasão, parecia ensurdecedor, quando afluíam nuvens da praga. Os seres vivos maiores, nestes instantes, procuravam refugiar-se nos seus esconderijos porque temiam as pernas ásperas (responsáveis por sensações repugnantes na pele). Os caminhantes descuidosos, apanhados de surpresa numa nuvem de gafanhotos, necessitaram deslocar-se de ré com vistas de não serem atingidos e feridos na sua visão. 
O gafanhoto constituía-se, nas suas características, num inseto de antenas curtas, mantinha órgãos auditivos situados lateralmente na base do abdômen, possuía tarsos triarticulados, revelava-se ovapositor curto... O tamanho, no período adulto, podia medir até 6,5 centímetros de comprimento. A coloração apresentava-se num castanho-avermelhado. O par de pernas posterior apresentava-se muito forte, longo e provido de farpas. Os indivíduos adultos chegavam a voar e deslocavam-se em grandes grupos. As nuvens, numa situação catastrófica, chegavam a depredar plantações inteiras. O número de espécies são variáveis e continuam a habitar diversos climas e continentes. O gafanhoto-de-praga, no Brasil Meridional, era o mais comum quando, com alguma frequência, atacava a região.
Os comentários populares, através de conversas informais, mantém viva as histórias das catástrofes que abateram-se nas zonas agrícolas. A fome do inseto parecia insaciável, porque desde o amanhecer até o anoitecer, viviam comendo. Parava unicamente na medida da ausência da alimentação. As folhagens, de um modo especial, pareciam "uma sobremesa predileta", na qual comiam até os talos. O solo, após o ataque, revelava-se uma terra destruída no qual carecia-se de qualquer verde. A cena apresentava-se como o de um desastre ecológico, no qual sobrou muitíssimo pouco para contar a história. A voracidade tamanha, sobretudo as cítricas (bergamoteiras e limoeiro) chegava a digerir as cascas das árvores. Os animais, principalmente cavalos e gado, ficavam sem opção de alimentação, pois consumiu-se as gramíneas. Algum cereal armazenado ou feno estocado poderia, neste dias dramáticos, revelar-se salvação contra a completa ausência de víveres.
A colonada, dentro das acentuadas limitações, procurava oferecer algum combate, que surtia escassos efeitos. As alternativas principais constituíam-se nas queimadas de vegetais que reduziam a quantidade de indivíduos e a fumaça que espantava centenas de milhares de invasores. O volume de insetos porém, parecia infindável, no qual fazia pouca diferença a eliminação de uma boa parte deles. O emprego de lança-chamas e construção de fossas-armadilhas (para os insetos jovens) eram outras tentativas de combate. A guerra parecia sempre perdida, quando nem adiantava com lona de pano, proteger quaisquer culturas. O bicharedo entrava em qualquer buraquinho. Entrava e comia a totalidade das plantas. A chuvas, de maneria geral, inibiam o avanço da praga quando os desastres se acentuavam. A colocação de ovos tornava-se uma realidade quando, em alguns dias, advinha a proliferação da espécie. 
Os ventos levavam e traziam a praga para os diversos rincões, quando então os morros sumiam da vista panorâmica. Os órgãos públicos, através da municipalidade estrelense, procuravam auxiliar no combate que, até o advento da pulverização química, parecia desperdício de recursos e tempo. Alguns esporádicos agricultores, corajosos na iniciativa, procuravam fabricar venenos caseiros à base de folhas de cinamomo. Combatiam os insetos com panos amarrados em ripas, que batiam rente ao solo. A maioria da colonada unicamente tivera o desgosto de apreciar o flagelo, que acentuava as preocupações com a subsistência familiar. As opções viáveis após o desastre, consistiam em replantar algumas culturais anuais, no qual o feijão e o milho assumiam o cerne das preocupações.
As invasões de gafanhotos extinguiram-se com as pulverizações áreas, que minaram a área de proliferação acentuada no deserto da Patagônia/Argentina. Encerrou-se, desta forma, um capítulo desastroso que tamanhos prejuízos causou durante décadas no meio rural.
As jovens gerações não conseguem fazer a mínima ideia daqueles desastres, que eram um terror no meio colonial. Os relatos, no entanto, continuam vivos na memória comunitária, quando os moradores viram-se repentinamente com a destruição e miséria. Os gafanhotos foram uma problemática num determinado contexto sócio-econômico, quando "os ventos da inovação científico-tecnológica" ceifaram aqueles dias tenebrosos. A sociedade, na atualidade, possui outros dilemas que nalgum dia a semelhança dos insetos serão mera história. Estes, entre outros muitos, relacionam-se a massiva produção de lixo, poluição acentuada do arroio Boa Vista, diminuição da fertilidade dos solos... Precisa-se encontrar alternativas às problemáticas que, como outra praga, custam a chegar em determinados momentos e situações.

Guido Lang
Histórias Coloniais - Parte 42
O Jornal Informativo de Teutônia, p. 04
14 de fevereiro de 1996

Crédito da imagem: http://blogdovulmarleite.blogspot.com.br/2008_12_01_archive.html 
TENTE!

"É impossível vencer uma corrida, a menos que se aventure a correr; é impossível conseguir a vitória, a menos que se ouse trabalhar. Nenhuma vida é mais trágica do que a do indivíduo que acalenta um sonho, uma ambição, sempre desejando e esperando, mas nunca dando uma chance a si mesmo".

Richard Devos
Empreendedor

sábado, 28 de julho de 2012

OS JUROS

"Os juros nunca dormem nem ficam doentes ou morrem; nunca vão para o hospital; trabalham durante domingos e feriados; nunca saem de férias; nuca fazem visitas ou viajam; não tiram tempo para lazer; nunca ficam sem trabalho nem ficam desempregados. Uma vez em débito, os juros são seus companheiros a cada minuto do dia ou da noite; não há como evitá-los nem deles fugir; não se pode ignorá-los e sempre que com eles falhar em atender as suas exigências, eles o esmagarão."

J. Reuben Clark Jr.
Educador
A HISTÓRIA E OS MISTÉRIOS DA CEGONHA


A procedência dos nenês era envolvida num quadro de mistério, quando os avôs e pais não nos contaram da sua origem a partir de um ato de amor. Os familiares, até a década de 60 do século XX, reafirmavam a velha história de que as cegonhas eram as responsáveis de trazer os maninhos. A criançada, em momentos, chegavam a sonhar com as aves, que, numas oportunidades, seriam vistas trazendo uma encomenda. A elucidação da lenda adveio com a liberalidade sexual, quando os meios de comunicação, trouxeram cenas de sexo explícitas. As famílias tradicionais, até então, procuravam abafar a curiosidade sexual da criançada, que aceitava, a semelhança do Coelhinho e Papai Noel, histórias do gênero.
A criançada, dentro da curiosidade natural, fazia interrogações referentes a origem dos maninhos. Os genitores, nestes instantes, deparavam-se com enormes dificuldades de apresentar uma resposta convincente, pois não se queria contar o fato da necessidade do ato sexual. Este daria margem a novas interrogações que pudessem acentuar as dúvidas do mito sexual. A história da cegonha, como responsável de atender encomendas, ganhava sua função social.
As comunidades germânicas, de maneira geral bastante conservadoras e discretas em questões ligadas ao sexo, tratavam de narrar a história. A tradição oral, de longa data, vinha atribuindo as aves a sublime tarefa de trazer os nenês. Estas, depois de uma encomenda, tinham a necessidade de providenciar o pedido; o atendimento do solicitado fazia-se, no máximo, num período de sete a nove meses. A encomenda de maninhos poderia ser efetuado unicamente pela mamãe e o papai, nalguma  aurora ou calada da noite, no qual os filhos tivessem dormindo. Estes rebentos, no máximo, poderiam solicitar um maninho (irmão) aos pais, mas jamais teriam acesso a cegonha; as suas encomendas poderiam-se concretizar unicamente na fase adulta, quando a ave daria-se o trabalho de escutá-los no solicitado.
As genitoras procuravam, em meio a graça da encomenda, esconder ao máximo o volume da barriga. Os filhos maiores, na sua santa ingenuidade, inúmeras vezes nem desconfiavam das alterações maternas, que advinham com a gravidez. Estes encontravam-se fixados naquela explicação ou ideia da cegonha, que traria os novos seres. As mães, no dia derradeiro da encomenda, procuravam ausentar-se da residência familiar, quando, no hospital ou parteira, iriam apanhar a almejada encomenda. Os filhos, diante da visita do médico ou parteira, recebiam a tarefa de dar uma passeada na moradia dos avôs e das dindas, enquanto, no intervalo de tempo, alguma ave misteriosa satisfazia a tão almejada encomenda.
Algum maninho gordo era uma encomenda pesada, que não poderia ser efetuada a qualquer ave do bando. Este pedido necessitaria ser efetuado a uma cegonha experiente e grande, que tivesse tido bastante prática na arte de concretizar pedidos. A dificuldade maior, em meio a acentuadas e pesadas tarefas dos trabalhos rurais, era conseguir escolher um nenê gordo e grande, pois os pais deparavam-se com dificuldades de contatar com alguma afamada. Esta, na maioria dos casos, vivia atarefada, quando, em maio a realidade colonial e desconhecimento da televisão, não "brincava em serviço". As famílias, a semelhança dos degraus de uma escada, viviam fazendo pedidos de encomenda, até a década de quarenta, fazia-se, numa média, a cada dois ou três anos. Os lares, em diversos exemplos, tinham tido de dez a quinze encomendas, que era um "trabalho para não colocar defeito".
As cegonhas traziam os nenês nus, que unicamente vinham enrolados numa tira de pano ao redor da barriga. O sexo, de imediato, salientava-se, pois numa sociedade machista e patriarcal, adorava-se encomendas masculinas. O sobrenome familiar necessitaria ser preservado, porque era algo de herança e orgulho de gerações familiares. As encomendas eram buscadas nos confins da terra, no qual praticamente o acesso humano seria impossível e inviável. A espécie de aves somente dominava o mistério da "matriz da fábrica", que era uma obra divina. Estas, no entanto, ignoravam também os enigmas da fabricação, que era uma tarefa afinada com os segredos da vida.
As aves, no entanto, recebiam séria advertência, quando apanhassem a mercadoria. A encomenda necessitaria apresentar semelhança com a aparência dos encomendadores, que, desta forma, evitariam posteriores aborrecimentos, conversas e discórdias. Os familiares e vizinhança, em meio a alemoada generalizada, iriam estranhar uma encomenda de uma criança de etnia diversa; alguma cor amarelada, morena ou vermelha, seria um falatório, que estenderia-se durante décadas e gerações. A confusão estaria criada, porque "os comentários correriam o mundo". O equívoco poderia gerar controvérsias e infelicidades, que acabariam destruindo a "harmonia familiar e o orgulho do sobrenome". Os cuidados familiares, em decorrência, eram criteriosos nos momentos da encomenda; acentuava-se, em relação a esposas e filhos, na medida da presença de peões e vizinhança, que tinham a fama de garanhões. Os equívocos, em casos esporádicos, poderiam-se revelar em anos posteriores, quando a encomenda tinha sido recebida a longa data. Os traços fisionômicos do maninho (irmão) ou rebento assumiam semelhança com algum conhecido e, portanto, distancia-se do pai criador. Uma boataria, confusão e mistério tinha-se criado, que seria uma amálgama familiar.
As cegonhas, em função da sua árdua e sublime tarefa, recebiam uma admiração especial no meio rural. As crianças tinham o cuidado de não afugentá-las ou caçá-las em meio as suas necessidades de procurar alimentação. Elas tinham plena liberdade de ciscar nos arroios e banhados, com vistas de assegurar sua sobrevivência. O seu ato de voar era motivo de beleza e elegância, que causava um espetáculo aos olhos do apreciador. Esta majestude constituía-se num dom e graça divina, que lhes auxiliou a receber a incumbência de trazer os nenês. A exuberância da sua plumagem igualmente inspirava grandeza e magnitude. O tamanho do bico salientava a função de assegurar a encomenda, que jamais poderia escapolir das alturas.

Guido Lang
Histórias Coloniais - Parte 42
Jornal O Informativo de Teutônia, p.04
06 de março de 1996

Crédito da imagem: http://www.brasilescola.com/curiosidades/origem-da-lenda-da-cegonha.htm

sexta-feira, 27 de julho de 2012

O ADVENTO DA TELEVISÃO


Pude, na minha infância, apreciar o advento dos primeiros programas de televisão, que eram a grande sensação no meio rural. As pessoas afluíam de quilômetros para assistir os programas, que rompiam a rotina do cotidiano rural.
Presenciei a introdução na Boa Vista Fundos/Teutônia/RS, quando mudou-se a rotina colonial. O primeiro aparelho foi adquirido geralmente pelos comerciantes (coloniais) e colonos melhor situados. Os "vendeiros" viram uma possibilidade econômica, porque os colonos vinham para casa de negócios com vistas de assistir as programações. O aparelho televiso, fascínio científico-tecnológico, era instalado num lugar espaçoso, no qual os moradores assistiam aos principais programas. Estes relacionavam-se sobretudo aos jogos da Copa do Mundo (1970), quando o Brasil possuía o "super-timão". O número de espectadores ampliara-se a cada partida na medida que a seleção nacional assumia a liderança e obtinha magníficas vitórias. Os telespectadores assistiam as transmissões e consumiam, paralelo a empolgação, bebes e comes, que eram comercializados pela casa. As lutas livres, aos sábados a noite, igualmente juntavam magnífico público, que vibrava a cada emoção. As torcidas sucediam-se a cada combate, no qual defrontavam-se "mocinhos" contra os "transgressores das normas esportivas". A programação, dos sábados a noite, rompeu com a rotina rural, no qual os moradores cedo tratavam os animais para, em seguida, afluírem em direção a casa comercial.
O tempo passou e a televisão tornou-se uma realidade comum, que acabou instalada em praticamente todas as residências coloniais. Perdeu-se a "magia", no qual o aparelho era a principal atração. Todos os moradores procuraram adquiri-lo na medida das suas condições econômicas e popularização do bem. A aquisição iniciou pelos mais afortunados e concluiu-se pelos menos: passou-se, numa etapa seguinte, para o aparelho em cores, que veio a substituir o televisor preto e branco. Veio, nos últimos anos, o vídeo e a antena parabólica, que, no momento, ganha maior espaço. Inúmeras residências rurais ainda não adquiriram a "maravilha tecnológica", que, no entanto, soma-se na proporção da elevação do nível econômico e popularização dos aparelhos. Outras novidades advirão e assim continuarão as mudanças, que trouxeram "uma verdadeira revolução de costumes, hábitos e valores".
O impacto da televisão, nos valores comunitários, carece de estudos. Posso, no entanto, adiantar que introduziu toda uma prática de consumismo. Procurou-se imitar e viver "modelos citadinos", que nada ou pouco condizem com a realidade local. "Modelos de hábitos e moda" acabaram introduzidos, que até chocaram-se com as experiências e vivências regionais. Os assuntos televisivos acabaram muito mais comentados, que acontecimentos locais, introduziu-se uma ideia da ampla criminalidade, egoísmo, individualismo, insegurança, poluição, roubos nos centros urbanos. Os moradores no entanto possuem oportunidade ímpar de inteirar-se nesta "situação do mundo", no qual comenta-se os conflitos e progressos.
A introdução da televisão gerou polêmicas. Os jovens ambicionaram continuamente adquirir o aparelho, enquanto seus anciões resistiram. Estes últimos alegaram a "televisão como desgraça familiar", no qual organizariam-se horários de trabalho em função de programas. A juventude, os filhos dos colonos, viveriam antenados no aparelho, quando deixariam de cumprir as tarefas agrícolas. O barulho e a claridade da televisão, para os velhos, atrapalharia o sono, porque os jovens ficariam assistindo até "altas horas da noite" (encontrariam-se cansados noutro dia e menos ativos na dura luta braçal da agricultura minifundiária de subsistência). A influência excessiva da televisão causaria uma insatisfação com a rotina colonial, no qual o resultado seria a migração (em direção ao "eldorado dos centros urbanos", no qual haveria muito conforto e trabalho).
O certo é que a "revolução televisiva" sucedeu-se, pois trouxe o "mundo dentro dos lares". Estes ingressaram-se ao consumismo e domínio cultural dos detentores dos canais televisivos. Valores comunitários acabaram relegados a plano secundário e "vive-se mais de acordo as maravilhas televisivas". O progresso, no entanto, ninguém pode estancar; necessita-se adaptá-lo a realidade da vida local, que, inúmeras vezes, rompe com os padrões normais de convivência. Ela precisa vir de encontro a nossa qualidade de vida, quando pode introduzir uma elevação do nível cultural. A televisão possui seus inconvenientes e vantagens e os moradores precisam aprender a extrair os benefícios. Tornou-se, na atualidade, uma realidade comum, no qual satura-se com excesso de transmissão, que pouquíssimo acrescentam aos indivíduos (em função do massivo tempo para assisti-los embora constitui-se num ótimo lazer depois das rotinas estafantes).

Guido Lang
Histórias coloniais - Parte 2
Jornal O Informativo de Teutônia, p. 04
17 de maio de 1995

Crédito da imagem: http://juntoutudojunto.blogspot.com.br/2012/06/televisao.html