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terça-feira, 23 de junho de 2020

O ATAQUE DOS GAFANHOTOS

A imagem pode conter: planta, grama, flor, atividades ao ar livre, natureza e água

Guido Lang

A memória comunitária mantém viva os acontecimentos ligados ao ataque de gafanhotos que, em forma de nuvens, atacaram o Sul do Brasil. A voracidade do inseto de imediato salientava-se e os vegetais acabavam devorados num ritmo assustador. O avanço do ortóptero constituía-se numa realidade comum até a década de 40 do século XX e, aos olhos da atualidade, descrevia uma cena inimaginável. Teutônia não se viu privada de insetos saltadores que, como consequência, descreviam um quadro de devastação e fome. Animais e homens, após a partida, deparavam-se com a "terra arrasada". 
A colônia de Teutônia, nos anos de 1906 e 1948, viveu uma tragédia incomum que ligou-se ao ataque do gafanhoto-de-praga (Schistocerca paranaensis). A agricultura e pastoreio viu-se devastada, quando os potreiros acabavam digeridos pela praga. O avanço dos insetos descrevia uma cena ímpar, quando o céu escurecia e o sol desaparecia em função da quantidade de invasores. O zunido, em meio à invasão, parecia ensurdecedor, quando afluíam nuvens da praga. Os seres vivos maiores, nestes instantes, procuravam refugiar-se nos seus esconderijos porque temiam as pernas ásperas (responsáveis por sensações repugnantes na pele). Os caminhantes descuidosos, apanhados de surpresa numa nuvem de gafanhotos, necessitaram deslocar-se de ré com vistas de não serem atingidos e feridos na sua visão. 
O gafanhoto constituía-se, nas suas características, num inseto de antenas curtas, mantinha órgãos auditivos situados lateralmente na base do abdômen, possuía tarsos triarticulados, revelava-se ovapositor curto... O tamanho, no período adulto, podia medir até 6,5 centímetros de comprimento. A coloração apresentava-se num castanho-avermelhado. O par de pernas posterior apresentava-se muito forte, longo e provido de farpas. Os indivíduos adultos chegavam a voar e deslocavam-se em grandes grupos. As nuvens, numa situação catastrófica, chegavam a depredar plantações inteiras. O número de espécies são variáveis e continuam a habitar diversos climas e continentes. O gafanhoto-de-praga, no Brasil Meridional, era o mais comum quando, com alguma frequência, atacava a região. 
Os comentários populares, através de conversas informais, mantém viva as histórias das catástrofes que abateram-se nas zonas agrícolas. A fome do inseto parecia insaciável, porque desde o amanhecer até o anoitecer, viviam comendo. Parava unicamente na medida da ausência da alimentação. As folhagens, de um modo especial, pareciam "uma sobremesa predileta", na qual comiam até os talos. O solo, após o ataque, revelava-se uma terra destruída no qual carecia-se de qualquer verde. A cena apresentava-se como o de um desastre ecológico, no qual sobrou muitíssimo pouco para contar a história. A voracidade era tamanha, que até chegavam a digerir as cascas das árvores das espécies cítricas (bergamoteiras e limoeiros). Os animais, principalmente cavalos e gado, ficavam sem opção de alimentação, pois consumiu-se as gramíneas. Algum cereal armazenado ou feno estocado poderia, neste dias dramáticos, revelar-se salvação contra a completa ausência de víveres. 
A colonada, dentro das acentuadas limitações, procurava oferecer algum combate, que surtia escassos efeitos. As alternativas principais constituíam-se nas queimadas de vegetais que reduziam a quantidade de indivíduos e a fumaça que espantava centenas de milhares de invasores. O volume de insetos porém, parecia infindável, no qual fazia pouca diferença a eliminação de uma boa parte deles. O emprego de lança-chamas e construção de fossas-armadilhas (para os insetos jovens) eram outras tentativas de combate. A guerra parecia sempre perdida, quando nem adiantava com lona de pano, proteger quaisquer culturas. O bicharedo entrava em qualquer buraquinho. Entrava e comia a totalidade das plantas. As chuvas, de maneria geral, inibiam o avanço da praga quando os desastres se acentuavam. A colocação de ovos tornava-se uma realidade quando, em alguns dias, advinha a proliferação da espécie. 
Os ventos levavam e traziam a praga para os diversos rincões, quando então os morros sumiam da vista panorâmica. Os órgãos públicos, através da municipalidade estrelense, procuravam auxiliar no combate que, até o advento da pulverização química, parecia desperdício de recursos e tempo. Alguns esporádicos agricultores, corajosos na iniciativa, procuravam fabricar venenos caseiros à base de folhas de cinamomo. Combatiam os insetos com panos amarrados em ripas, que batiam rente ao solo. A maioria da colonada unicamente tivera o desgosto de apreciar o flagelo, que acentuava as preocupações com a subsistência familiar. As opções viáveis após o desastre, consistiam em replantar algumas culturais anuais, no qual o feijão e o milho assumiam o cerne das preocupações. 
As invasões de gafanhotos extinguiram-se com as pulverizações áreas, que minaram a área de proliferação acentuada no deserto da Patagônia/Argentina. Encerrou-se, desta forma, um capítulo desastroso que tamanhos prejuízos causou durante décadas no meio rural. 
As jovens gerações não conseguem fazer a mínima ideia daqueles desastres, que eram um terror no meio colonial. Os relatos, no entanto, continuam vivos na memória comunitária, quando os moradores viram-se repentinamente com a destruição e miséria. Os gafanhotos foram uma problemática num determinado contexto sócio-econômico, quando "os ventos da inovação científico-tecnológica" ceifaram aqueles dias tenebrosos. A sociedade, na atualidade, possui outros dilemas que nalgum dia a semelhança dos insetos serão mera história. Estes, entre outros muitos, relacionam-se a massiva produção de lixo, poluição acentuada do arroio Boa Vista, diminuição da fertilidade dos solos... Precisa-se encontrar alternativas às problemáticas que, como outra praga, custam a chegar em determinados momentos e situações. 

* Fonte: Jornal O Informativo de Teutônia, página 04, seção "Histórias Coloniais - Parte 42", de 14 de fevereiro de 1996. Autor: Guido Lang

* Postagem: Júlio César Lang

* PROIBIDA A REPRODUÇÃO INTEGRAL OU PARCIAL DO TEXTO SEM A MENÇÃO DA REFERIDA FONTE (LEI Nº 9.610, DE 19 DE FEVEREIRO DE 1998).

OS PRIMEIROS MOTOCICLOS



Guido Lang

Os motociclos (motos) foram importados nos primórdios dos anos sessenta pelas colônias teutonienses. A marca Jawa, originária da Tchecoslováquia (atuais República Tcheca e Eslováquia), era a grande novidade tecnológica nas estradas de chão batido, que iam conhecendo uma revolução nos transportes.
A introdução de automóveis, caminhões e motociclos foi suplantando o tradicional transporte equino, que tinha cumprido sua função histórica. Unicamente os colonos mais afortunados podiam dar-se o luxo e o privilégio de adquirir os primeiros veículos automotores, que eram vistos como símbolos de modernização e progresso. Os esporádicos proprietários eram muitíssimo admirados e invejados em função do status econômico, porque poucos davam-se o direito de investir uma pequena fortuna pessoal na compra de uma motocicleta.
Os primeiros acidentes também tomaram forma “nestes cavalos sobre rodas”, que corriam e exigiam equilíbrio. As habilidades na direção necessitavam de prática, no que os potreiros eram os ambientes propícios para exercitar os exames preliminares de direção. 
Os motociclistas, cedo ou tarde, envolviam-se em acidentes, pois não faltavam areia, barro, buracos ou pedregulhos “para levar uns bons tombos”.
A indumentária de proteção era desconhecida para os motoristas. Capacete, luvas, roupas de couro, foram ignorados até pelas normas elementares de trânsito. Unicamente a baixa velocidade evitou maiores tragédias que pudessem ter roubado vidas humanas. A precariedade das estradas impedia o desenvolvimento de maiores velocidades, que, no máximo, chegavam aos 60 km horários. O transporte de caroneiros e mercadorias, em função do peso, eram também empecilhos para corridas mais velozes.
Um motociclista, num belo dia, resolveu passear com sua amada esposa. O passeio foi até a vila próxima, pois o casal almejava apresentar o veículo recém adquirido. Os amigos, conhecidos e vizinhos admiravam e falavam sobre os recém motorizados. O piloto, com o maior orgulho e sem muita habilidade na direção, passeou pelo vilarejo e sua senhora “estufava o peito e empinava o nariz”. A caroneira, “num imenso grau”, nem se segurou e, numa distração, voou do motociclo e sentou-se em meio a estrada da vila. O esposo passou por um buraco e o assento escapou do traseiro da mulher. Os pedestres encheram-se de comentários e gargalhadas porque “o querer mostrar-se é uma virtude dos imbecis”.
A humildade e a simplicidade precisam ser cultivadas em todos os nossos atos diários.

* Fonte: Disponível no livro "OS COLONIZADORES DA COLÔNIA TEUTÔNIA: COLETÂNEA DE TEXTOS", de Guido Lang.

* Postagem: Júlio César Lang.

* PROIBIDA A REPRODUÇÃO INTEGRAL OU PARCIAL DO TEXTO SEM A MENÇÃO DA REFERIDA FONTE (LEI Nº 9.610, DE 19 DE FEVEREIRO DE 1998).

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quarta-feira, 10 de junho de 2020

PRÉDIO DA LOJA MAÇÔNICA "LUZ DE TEUTÔNIA" EM GLÜCK-AUF (BAIRRO CANABARRO - TEUTÔNIA/RS)


O prédio localizava-se ao lado do cemitério evangélico. A maçonaria está difundida em todas as grandes cidades do Brasil, dos Estados Unidos e principalmente da Europa. No Bairro Boa Vista (Teutônia/RS), também havia uma sede maçônica, chamada de “Rosa de Teutônia” (distinta da loja de Canabarro, denominada de "Luz de Teutônia"). Ano da foto: 1912. Segundo fontes locais, os prédios posteriormente foram desmontados e suas pedras aproveitadas em outras construções nos bairros.

* Fonte: Disponível no livro "OS COLONIZADORES DA COLÔNIA TEUTÔNIA: COLETÂNEA DE TEXTOS", de Guido Lang.

* Crédito da imagem: Guido Lang.

* Postagem: Júlio César Lang.

* PROIBIDA A REPRODUÇÃO INTEGRAL OU PARCIAL DO TEXTO SEM A MENÇÃO DA REFERIDA FONTE (LEI Nº 9.610, DE 19 DE FEVEREIRO DE 1998).

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terça-feira, 9 de junho de 2020

EVOLUÇÃO DAS LINHAS DE LEITE


Guido Lang

As localidades, a partir da década de trinta, conheceram um serviço rural, que passou a redimensionar a atividade produtiva e a vida social de inúmeras comunidades interioranas. O trabalho de escoamento de leite tomou impulso ao implantar-se contínuas melhorias de locomoção e transporte. O volume da produção, em substituição ao outrora mercado da nata, exigiu inovações que fizeram-se ao longo das décadas. Uma casta de novos ricos aflorou com a produção leiteira, enquanto a massa produtora de leite não acumulou maiores divisas financeiras; os interioranos, como de praxe, conseguiram poucos recursos advindos de uma penosa labuta.
As primeiras linhas de leite, curiosamente, começaram mediante o transporte equino. Algumas latas eram amarradas na sela dos animais. Os recipientes eram enchidos num ponto comum e em seguida, de carroça, eram escoados em direção aos laticínios. A vantagem desse transporte era relacionado ao fácil acesso, pois quaisquer becos de chão batido eram alcançáveis. Os caminhos da roça eram percorridos com a finalidade de escoar algumas dezenas de litros. Os transportadores, desrespeitando as intempéries e costumeiramente acompanhados de alguma cachorrada, tratavam de fazer o penoso serviço. Não acumulavam, porém maiores dividendos com a labuta. Faziam, no entanto, boas amizades e relações sociais no contexto da colonada.
Os carroceiros de leite foram a segunda etapa do processo produtivo. Com um conjunto de quatro a seis animais (burros ou bois) iam juntando o produto na picada. Um maior número de produtores exigiu uma ampliação dos volumes carregados, assim o transporte equino tornava-se antieconômico. Algum leiteiro, tendo de dez a vinte latas na carroça, tratava de apanhar e juntar o produto, e “o negócio da comercialização d’água” podia correr solto. A exclusão social tomava-se uma realidade devido a descoberta de falcatruas. O carregador, em média, levava meio dia para percorrer o percurso de meia dúzia de quilômetros, que estendiam-se da sua casa até a “nataria”. Este, igualmente, não acumulou nada de expressivo com o serviço que mal e mal deu para o sustento familiar: alguma criação e plantação complementava as exigências de sobrevivência. 
O caminhão leiteiro se tornou a terceira empreitada, no qual podia-se carregar alguns milhares de litros e percorrer diversas dezenas de quilômetros. Os leiteiros começaram a ostentar uma expressão econômica e social destacada, ganharam dinheiro, fama e influência. Estes tornaram-se o elo entre produtores e empresas, pois, além de levar o leite, tratavam de trazer mercadorias. O transporte de rações e produtos diversos passava pelo veículo automotor, abrindo assim uma espécie de transportadora rural. Os dividendos financeiros, desta forma, que afluíam de diversos meios, puderam oferecer um bom nível de vida: uma residência confortável, um bom carro, renovação periódica do caminhão, compra de novas linhas de leite eram possibilidades.
O leiteiro e sua família eram figuras chaves nas festas familiares de confirmação e casamento. Ele, costumeiramente, era um dos primeiros convidados, pois atendia aos diversos moradores da comuna. O seu caminhão de leite, em costumeiras oportunidades, parecia mais uma linha de ônibus, do que um escoador da produção colonial. As caronas de produtores, diante da ausência de linhas de ônibus ou o desejo de não custear as passagens, eram corriqueiras e a cabine era muitíssimo disputada. Algumas senhoras, esposas de produtores, até adquiriram fama, porque, com extrema frequência, utilizavam-se do serviço; algumas tinham a preferência de sentar próximo ao motorista-proprietário, e os boatos de casos amorosos tomavam vulto.
Os caminhões-tanque são a recente inovação, pois primam pela eficiência e higiene do carregamento. Eles são frutos das inovações mercadológicas, porque o mercado busca a racionalização de custos diante dos desafios da concorrência e da integração econômica. Estes precisam escrever sua epopeia do escoamento de leite, pois, à semelhanças do transporte equino, carreteiro de bois e caminhão de leite, inscreveram sua saga no contexto colonial. As linhas de leite, portanto, tiveram expressiva importância, pois foram fatores de uma redimensão das atividades produtivas da lavoura minifundiária de subsistência, como também razão de inúmeras reminiscências de acontecimentos rurais.

* Fonte: Disponível no livro "OS COLONIZADORES DA COLÔNIA TEUTÔNIA: COLETÂNEA DE TEXTOS", de Guido Lang.

* Crédito da imagem: Rudolfo Geib, morador da Boa Vista Fundos/Teutônia/RS, transportando a produção de leite até a Boa Vista, na fábrica de manteiga "Dahmer & Cia", onde o produto era desnatado. Anos de 1940 (Gentileza - Rudolfo Geib).

* Postagem: Júlio César Lang.

* PROIBIDA A REPRODUÇÃO INTEGRAL OU PARCIAL DO TEXTO SEM A MENÇÃO DA REFERIDA FONTE (LEI Nº 9.610, DE 19 DE FEVEREIRO DE 1998).

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segunda-feira, 8 de junho de 2020

A INTRODUÇÃO DA REDE ELÉTRICA


Guido Lang

A localidade de Boa Vista Fundos (Teutônia/RS), em 1965-1966, conheceu a introdução de uma nova rede elétrica. Os moradores sem energia e com interesse em integrar a nova linha auxiliaram na construção do melhoramento. Um mutirão, à base do trato verbal e serviço prestado por dias trabalhados, tomou possível o barateamento da rede comunitária, que veio revolucionar a vivência comunitária. Os colonos associados, mesmo assim, necessitaram desembolsar uma boa soma monetária, que possibilitou custear a melhoria. A instalação da luz elétrica, em diversas residências, veio a sepultar progressivamente velhos hábitos, além disso os moradores passaram a ter uma vida noturna mais intensa. A revolução, de imediato, veio abolir as tradicionais lamparinas de querosene que, há décadas, iluminavam as moradias. A fuligem, em decorrência dessa iluminação, era uma marca comum nas paredes das residências, reforçada a ação do fogão a lenha. Eventuais incêndios, em função de acidentes com os artefatos, acabaram diminuídos no meio rural, pois a iluminação elétrica diminuía estes riscos.
Os moradores das colônias, antes do advento da luz elétrica, tinham poucos hábitos noturnos. O lema era de aproveitar ao máximo as horas ensolaradas. O ciclo da vida parecia caminhar paralelo à sucessão dos dias e das noites, sendo que os espaços diurnos eram destinados à labuta e os noturnos, ao repouso. As famílias, de maneira geral, iam “dormir com as galinhas”, pois não se tinham pretensões de labutar à noite. Os horários, como 20 a 22 horas, eram os momentos de recolhimento, porque um bom e tranquilo sono era compreendido como altamente saudável. A labuta, com os primeiros raios solares, era retomada. Havia o lema de “quem cedo madruga, Deus ajuda”.
As pessoas, sobretudo os casais, aproveitavam o alvorecer e o cair do dia para os diálogos, que tratavam dos acontecimentos comunitários e do planejamento rural. Os filhos, a partir da cama, podiam inteirar-se das conversas que se sucediam ao redor da rodada matinal do chimarrão. Somente os rebentos maiores entravam na roda das conversas e do chimarrão, enquanto os menores, no caso de madrugar, recebiam um colo e podiam servir-se posteriormente. As famílias, dessa forma, encontravam um maior horário de diálogo, que era sublime para a boa convivência familiar. Os divórcios e separações no meio rural eram casos raríssimos que, na eventualidade, originavam um “estrondo comunitário”. Os casais, neste modelo de vida, detinham maior espaço de convivência e curtição, e parecia haver uma maior integração afetiva. O contato com a natureza e a vida livre parecia acirrar os desejos dos instintos, o que podia resultar numa profícua prole.
As dificuldades maiores decorriam unicamente do inverno, quando as noites eram excessivamente longas. Diversas pessoas “cansavam da cama”, quando a escuridão prolongava o repouso. O ambiente escuro e frio inibia o madrugar, por isso a solução era ter paciência com a situação. Os dias chuvosos eram também uma problemática, pois a criançada ousava correr na umidade. As mães, às vezes, ficavam atordoadas com as bagunças, quando agitavam-se tremendamente as moradias. A alternativa consistia em levar a filharada até os galpões, onde podiam brincar no espaço das ferramentas, no estábulo, no paiol... Os pais cuidavam dos reparos, que se relacionavam a ferramentas, instalação, roupas, assim como construção de caixa de abelhas, confecção de cabos e vassouras, cuidados com animais...
A introdução da luz elétrica trouxe progressivas mudanças de hábitos e valores de vida, quando a convivência familiar passou a estender-se noite a dentro. Os princípios do consumismo e do materialismo passaram a concentrar as atenções e, lentamente, diversos aparelhos elétricos acabaram sendo adquiridos. Uma vontade acirrada de comprar aparelhagem tecnológica tomou corpo, portanto passou-se também a ter dificuldades de caixa. Os dividendos gerados eram canalizados para o custeio mensal da taxa de iluminação, o que gerou uma dependência financeira. Os excedentes monetários, progressivamente, foram canalizados ao consumo familiar, deixando-se de empregar no sistema de melhoramentos da produção agrícola. Os moradores passaram a absorver princípios consumistas, e a “filosofia de pão-duro” passou a perder expressão. A agitação, a correria e o tempo ganharam importância, quando, nas novas gerações, assimilaram inúmeros modelos e valores citadinos. A energia possibilitou o acesso ao mundo e com ela suplantou-se parte da pacata vida rural.

* Fonte: Disponível no livro "OS COLONIZADORES DA COLÔNIA TEUTÔNIA: COLETÂNEA DE TEXTOS", de Guido Lang.

* Crédito da imagem: Conceicao Aparecida Trentin (https://br.pinterest.com/pin/352828952034898853/)

* Postagem: Júlio César Lang.

* PROIBIDA A REPRODUÇÃO INTEGRAL OU PARCIAL DO TEXTO SEM A MENÇÃO DA REFERIDA FONTE (LEI Nº 9.610, DE 19 DE FEVEREIRO DE 1998).

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sexta-feira, 5 de junho de 2020

ESCRITURA DE VENDA DE UM PRAZO COLONIAL



“Escritura de venda de uma colônia que faz a Sociedade Carlos Schilling, Lothar de la Rue, Jacob Rech, Guilherme Kopp & Companhia a Jacob Lang por 1:500$000 réis como se vai declarar: Saibam quantos este público instrumento de escritura de venda virem que no ano de nascimento do Nosso Senhor Jesus Cristo, de mil oitocentos e oitenta e quatro, aos dois de fevereiro, na Colônia Teutônia, distrito da Vila de Estrela, em Casa do Diretor da mesma colônia Roberto Paulsen, onde eu tabelião fui vindo, ali em presença das testemunhas no fim assinadas, compareceram partes ajustadas, sendo de uma parte como vendedor a Sociedade Carlos Schilling e Companhia representada por seu Diretor Roberto Paulsen, cuja procuração está lançada em meu livro de notas de nº 2, ps 40, e de outra parte como comprador Jacob Lang, moradores nesta colônia, reconhecidas pelos próprios de mim Tabelião e das testemunhas do que dou fé; e por Roberto Paulsen por sua constituinte me foi dito que vende ao sobredito Jacob Lang uma colônia na Picada Catharina de n° 5 com cento e cinquenta mil braças quadradas e se divide pela frente com a dita picada, pelo fundo com terras devolutas, pelo sul com terras de Guilherme Schaurich, e pelo norte com terras de Frederico Kussler, que vende pelo preço de um conto e quinhentos mil réis (1:500$000 rs), que lhe foi entregue pelo comprador em moeda corrente; e assim recebido o preço pelo vendedor disse que deste já transfere ao comprador todo direito, ação, posse, domínio e senhorio que tinha em dita colônia e se obriga a fazer esta venda boa, firme e valiosa e defender o comprador de qualquer dúvida que possa haver. Logo o comprador disse que aceita esta escritura por estar a sua vontade e exibe os bilhetes de sizo sendo o de imposto provincial de nº 119, e o de imposto geral que tem o teor seguinte: Número 158. Exc” de 1883 a 1884. Réis 90:000. A fs 35 do 1. caixa fiscal deb” o coletor pela quantia de 90:000 réis recebido do Senhor Jacob Lang de 6% de 1:500$000 réis por quanto comprou a Sociedade Carlos Schilling e Comp. uma colônia no distrito desta vila. Colectoria da Estrela em dois de fevereiro de 1884. O Coletor Pedro Roiz Machado. O Escr. Fliberto Fagos Menna Barreto. O comprador obriga-se a cumprir as condições dos contratos impressos da sociedade. E assim me pediu lhe fizesse este instrumento que lhes li, aceitaram, e assino com as testemunhas perante mim Antônio Geraldo Pereira Tabelião que o escrevi, assino em público e raso. Em testemunho AGP de verdade. O Tabelião Antônio Geraldo Pereira. Roberto Paulsen, Jacob Lang e Jacob Renner”.

(Extraído do Livro de Notas nº 7, p. 26-27, do Cartório 1º Tabelionato de Estrela).

* Fonte: Disponível no livro "OS COLONIZADORES DA COLÔNIA TEUTÔNIA: COLETÂNEA DE TEXTOS", de Guido Lang.

* Crédito da imagem: Vista panorâmica da localidade da Boa Vista Fundos/Teutônia/RS, local do lote. Foto tirada da Catarina Alta, na direção do Vale do Arroio Vermelho. Anos de 1970 (Gentileza - Guido Lang).

* Postagem: Júlio César Lang.

* PROIBIDA A REPRODUÇÃO INTEGRAL OU PARCIAL DO TEXTO SEM A MENÇÃO DA REFERIDA FONTE (LEI Nº 9.610, DE 19 DE FEVEREIRO DE 1998).

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quarta-feira, 3 de junho de 2020

OS DIRETORES DA COLÔNIA TEUTÔNIA

A imagem pode conter: uma ou mais pessoas, multidão e atividades ao ar livre

Guido Lang

A sede da Companhia Colonizadora Carlos Schilling e Cia esteve localizada em Porto Alegre/RS. Ela, em decorrência, precisou nomear pessoas responsáveis, que pudessem representar seus interesses na colônia. Os colonos afluíam das velhas colônias (de São Leopoldo), ou de Rio Grande à Taquara, quando encaminharam-se à Teutônia para adquirir os tão almejados lotes de terras. Eram dirigidos, sobretudo, pela Transportadora de Karl Arnt, diretamente à casa do diretor ou procurador da Colônia Teutônia.
Teutônia teve um total de seis diretores. O primeiro foi Lothar de la Rue, que administrou-a de 1862 a 1868; destacou-se, na sua gestão, a medição das terras e sua delimitação em picadas. Administrou a nascente colônia a partir de Canta Galo (localizada ao sul de Posses — município de Taquari). Este também comercializou os primeiros prazos a Christiano e Conrado Schwingel, Almândio Dickel e Francisco Antônio Machado, assim como, auxiliou na instalação de outras famílias de pioneiros que, posteriormente, tiveram recursos para comprar as terras.
Karl Arnt, segundo diretor, assumiu no período compreendido de 1868 a 1872. Seu desempenho como administrador foi tamanho que algumas bibliografias e a tradição oral lhe conferem a própria fundação de Teutônia. Ele, além de diretor, constituiu-se no primeiro comerciante em Teutônia, quando instalou-se na Picada Glück-auf (atual Bairro Canabarro/Teutônia/RS). Foi o responsável pela instalação da empresa transportadora, matadouro, serraria, moinho e fábrica de bebidas. Empenhou-se, como cristão, na constituição da primeira comunidade evangélica e escola comunitária. Arnt também tornou-se sócio da empresa colonizadora Carlos Schilling; regimentou inúmeros prazos coloniais (espalhados nas diversas picadas, os quais posteriormente comercializou ou deixou como herança aos filhos); sedimentou a colonização, quando uma enorme quantidade de lotes foram comercializados; vendeu terras aos colonos: Nicolaus Streher, Ernst Güntzel, Bernard Robert Greuner, Albert Schüler, Nicolau Röhrig, Jacob e Daniel Franck, Wilhelm Brust, Abraão Heinrich, Friedrich Genehr, Ernst Hachmann, Heinrich Jung, Wilhelm Greve, Friedrich Schneider, Adão Zimmermann, Christian Zimmermann, Ernst Hunsche, Wilhelm Schonhorst, Friedrich Etgeton, Friedrich Markus, Julius Baumgarten, Jacob Scheiermann, Wilhelm Hachmann, Caroline Hauenstein, Gottlieb Borgelt, Heinrich e Wilhelm Lautert, Conrad Flech, Jacob Lang, Karl Fries, Jacob Dockhorn, Friedrich Kussler...
Oscar von Boronski, terceiro diretor, ficou à frente da administração de 1872 a 1876. Prosseguiu a intensa comercialização de terras e o sucesso do empreendimento foi assegurado; comercializou terras a Karl Arnt, Friedrich Voges, Manoel Lautert, Friedrich Lautert, Johann Heinrich Böhm, Friedrich Landmeier, Adão Fensterseifer, Heirich Gödtel, Christian Schmitt, Friedrich Becker, Friedrich Kich, Wilhelm Prass, Karl Surkamp, Wilhelm Zimmermann, Wilhelm Dickel, Peter Schneider, Luiz Diderich, Abraão Bohneberger, Wilhelm Wiebusch, Wilhelm Kilpp, Wilhelm Brune...
Jacob Kilpp, quarto procurador, assumiu a administração de forma interina no período de 1876 a 1878, quando vendeu lotes a Jacob Born, Johann Schröer, Karl Arnt, Jacob Röhrig, Henrich Ritter e Jacob Feldens.
Roberto João Júlio Paulsen administrou-a no período de 1878 a 1889, quando continuou a comercialização das terras e vendeu lotes aos colonos: Jacob Elicker, Pedro Michel, Hermann Cord, Wilhelm Ahlert, Hermann Bunnecker, Rudolph Ahlert, Wilhelm Schumann, Heinrich Hoge, Friedrich Brönstrup, Wilhelm Wilsmann, August Wessel, Wilhelm Brönstrup, Karl Arnt, Jacob Hengen, Heinrich Eggers (natural de São Leopoldo), Wilhelm Heemann, Heinrich Fangmeier, Jacob Feldens Filho, Philipp Stahlhöfer, Jacob Lang, Jacob Renner, Adolf Eggers, Jorge Saueressig, Wilhelm Krützmann, Ernst Borgelt, Adão Knebel, Wilhelm Hachmann, Adolf Lautert, Adolf Goldmeier, Adolf Etgeton...
Walter Wienandts, diretor de 1889 a aproximadamente 1902, foi o último diretor, quando concluiu a comercialização das terras e efetuou a colonização da área norte da colônia; vendeu terras a: Friedrich Konermann, Friedrich Heinrich Bergjohann, Heinrich Gausmann, Gaspar Heinrich Markus, Friedrich Lutterbeck, Geraldo Spellmeyer, Bernard Wilhelm Schröer, Johann Friedrich Gaspar Lagemann, Ernst Heinrich Lagemann, Heinrich Wilhelm Inhoff, Friedrich Wilhelm Teckmeier, Friedrich Lindemann, Nicolau Nilsson, Friedrich Heinrich Inhoff, Heinrich Nietiedt, Friedrich Wilhelm Rahmeier, Rudolf Brune, Heinrich Altevogt, Heinrich Spellmeir, Friedrich Richter, Heinrich Paasche, Heinrich Damann.
Vários destes pioneiros são da primeira geração de teuto-brasileiros e filhos dos patriarcas.

* Fonte: Extraído do livro "OS COLONIZADORES DA COLÔNIA TEUTÔNIA: COLETÂNEA DE TEXTOS", de Guido Lang.

* Crédito da imagem: Clube de Tiro ao Alvo (Schutzenverein em Teutônia/RS). Ano de 1900. Comandante da banda Fritz Borchmann. Na 1ª fila, a banda musical dos irmãos Dick (Gentileza - Guido Lang).

* Postagem: Júlio César Lang.

* PROIBIDA A REPRODUÇÃO INTEGRAL OU PARCIAL DO TEXTO SEM A MENÇÃO DA REFERIDA FONTE (LEI Nº 9.610, DE 19 DE FEVEREIRO DE 1998).

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terça-feira, 2 de junho de 2020

TRANSPORTE À ESTRELA/RS


Guido Lang

Jacob Veeck com seu “caminhão ônibus”. Fazia linha uma vez por semana (quintas-feiras) à Estrela. O trajeto era Languiru, Canabarro, Posses, São Jacó, Estrela/RS. Não havia rodoviária e a parada era no Hotel Sipmann em Estrela/RS. O veículo tinha 21 cavalos de força e um eixo de força com 10 cavalos, carregava 13 passageiros e levava 4 dias para chegar a Panambi/RS. As estradas eram precárias; viajava muito pelos campos com diversos atoleiros. O pessoal é Willibaldo Veeck (guri), Jacó Veeck (motorista), Paulina Veeck, Alma Veeck e Otto Dickel. Sem informações quanto ao ano em que a foto foi tirada.

*Texto extraído dos livros “COLÔNIA TEUTÔNIA: HISTÓRIA E CRÔNICA (1858-1908)" e "OS COLONIZADORES DA COLÔNIA TEUTÔNIA", de GUIDO LANG.

* PROIBIDA A REPRODUÇÃO INTEGRAL OU PARCIAL DO TEXTO SEM A MENÇÃO DA REFERIDA FONTE (LEI Nº 9.610, DE 19 DE FEVEREIRO DE 1998).

* Postagem: Júlio César Lang.

* Crédito da imagem: Gentileza - Raimundo Bayer da Boa Vista Fundos/Teutônia/RS.

segunda-feira, 1 de junho de 2020

AS FASES DA COLONIZAÇÃO DE TEUTÔNIA/RS



Guido Lang

O processo de ocupação ocorreu em três etapas: o primeiro período ocorreu entre os anos de 1862 a 1868, quando foram colonizadas as picadas situadas ao sul da Colônia Teutônia, isto é, as terras situadas à margem esquerda do Arroio Boa Vista. Constituía-se na área mais plana, formada pelas picadas Hermann, Glück-auf, Nove Colônias, Posses, Catarina e Boa Vista. Colonizou-se, neste período, somente as picadas de Hermann, Glück-auf e Boa Vista. Destacaram-se neste empreendimento de colonização os colonos teuto-brasileiros ou imigrantes alemães que, inicialmente, tentaram estabelecer-se na área da antiga Colônia Alemã de São Leopoldo. Estes foram atraídos pela propaganda da fertilidade das terras (solo massapê — muito valorizado antes do advento dos adubos químicos), assim como pela informação da boa administração da colônia e na tentativa de fazer uma colonização, principalmente, com evangélicos luteranos (que sentiam-se perseguidos com os acontecimentos dos Mucker e o espírito da Contra-Reforma com a chegada dos jesuítas). Estes colonos iniciaram propriamente a colonização, ao contrário do que querem fazer algumas bibliografias tradicionais. Verificou-se nesta ocupação, uma colonização mista, pois afluíram teuto-brasileiros e imigrantes das mais variadas procedências. Instalaram-se nos lotes, que tiveram uma extensão de uma a duas colônias (100.000 a 200.000 b2).
A segunda fase ultrapassou o Arroio Boa Vista, isto é, abrangeu as terras situadas a sua margem direita. Foram ocupadas as picadas Frank, Welp, Clara, Schmidt e Neuhaus (atual Teutônia Várzea) assim como Posses, Nove Colônias e parte da Catarina (lotes nº 1 a 10) da margem esquerda. A ocupação ocorreu a partir de 1868 a 1875, quando a influência dos colonos teuto-brasileiros das velhas colônias foi menor. Predominaram os colonos westfalianos, que tinham imigrado a partir de 1868. Posses foi uma exceção, pois foi forte a influência luso-brasileira e africana (tinha existido, provavelmente, um quilombo próximo à área, por isso a presença acentuada). A comercialização e ocupação destes lotes foi rápida, isto é, em menos de uma década vendeu-se toda a área. A característica dos prazos é que ficaram menores (média de 100.000 b2) e as terras começaram a ficar acidentadas (devido à presença de morros testemunhos em Clara, Schmidt, Harmonia, Teutônia e as encostas ou cuestas do Planalto Meridional). A extensão das picadas (linhas) igualmente reduziu-se e estas localizavam-se no centro da Colônia Teutônia. 
A última etapa ocorreu no espaço compreendido de 1876 a 1885, quando foram desbravadas as picadas do norte da colônia. A área engloba os terrenos acidentados das encostas do planalto, que dificultaram a agricultura (favorecem na atualidade a instalação de aviários, devido ao clima ameno). Foram colonizadas as picadas: Moltke, Köln, Berlim, Huch ou Krupp, Bismarck, Arroio Secco, Frederico Guilherme, Horst e Silveira Martins. Predominou uma colonização homogênea de colonos westfalianos, que tiveram inicialmente, sérios obstáculos em meio aos morros, para alcançar a prosperidade. O tamanho dos prazos reduziu-se ainda mais (média de 40 a 60.000 b2), assim como das picadas (de 10 a 20 lotes de terras). A área abrange atualmente, a parte norte do município de Teutônia/RS e sul de Imigrante/RS. 
Teutônia foi colonizada, portanto, num espaço de três décadas, nas quais predominaram os colonos provenientes da Westfália, seguidos dos pioneiros das velhas colônias. 

*Texto extraído do livro “COLÔNIA TEUTÔNIA (1858-1908)", de GUIDO LANG

* É PROIBIDA A REPRODUÇÃO INTEGRAL OU PARCIAL DO TEXTO SEM A MENÇÃO DA REFERIDA FONTE (LEI Nº 9.610, DE 19 DE FEVEREIRO DE 1998). 

* Postagem: Júlio César Lang

* Crédito da imagem: Moradores da Picada Schmidt/Westfália/RS jogando baralho. Aparece, terceiro jogador da direita para esquerda; Karl Heinrich Strate - Ano 1890 (Foto: Gentileza - Guido Lang).