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terça-feira, 14 de julho de 2020

AS COSTUREIRAS RURAIS

Guido Lang


O meio colonial, até os anos setenta, tinha uma intensa atuação de profissionais da costura, que espalhavam-se no contexto das localidades. O quadro era integrado por moças e senhoras, que mantinham costumeiramente uma grande lista de clientes. A fama e glória das costureiras podia abranger picadas circunvizinhas, de onde afluía a clientela. Os conhecimentos na costura e o preço dos serviços eram ingredientes básicos para alcançar a acentuada procura dos préstimos, que tinham maior procura nas épocas próximas à eventos festivos especiais. Os festejos de Kerb eram o grande período da fartura financeira e as profissionais não davam conta dos pedidos. Algumas recusas, em situações, tornavam-se uma realidade, quando as encomendas chegavam muitíssimo em cima da hora ou quando o contratante era péssimo pagador.
Os rurais adquiriam os tecidos nalguma venda, que os comprava em rolo e os vendia em metragem. O cliente adquiria a quantidade necessária para alguma camisa, calça ou vestido, e o produto da compra, em seguida, era encaminhado à costureira. Esta costumeiramente tirava as medidas no ato e anotava-as nalgum caderninho. As partes, neste instante, aproveitavam o momento para descrever os detalhes do modelo da costura, quando podiam advir ideias e sugestões da própria pedinte ou da profissional. Os exemplos de alguma publicação, podiam somar-se ao contexto, quando podia introduzir-se uma nova moda. O uso da roupa, costumava gerar amplos comentários, e era motivo de cópia e de ostentação da vaidade feminina.
As profissionais tinham suas máquinas de costura adquiridas a duras economias. As famílias, sobretudo os pais, esforçavam-se para poderem comprar este bem, que era destinado à menina moça. Esta também recebia o curso, que era concretizado com alguma profissional. Ela, a partir daí, tinha o compromisso de costurar as roupas dos membros familiares e nada poderia cobrar. Cobravam somente dos estranhos, dos amigos, parentes e vizinhos. Os irmãos casados igualmente tinham a obrigação de custear as despesas quando requisitavam trabalhos.
Uma boa moça, um bom par para o matrimônio, devia saber costurar, podendo ocupar-se, pelo menos, com as necessidades mais proeminentes da família. Esta poderia costurar as principais roupas ou concretizar os remendos imprescindíveis. Uma família colonial com esparsos ganhos não podia dar-se ao luxo de periodicamente ostentar gastos nesta área. As moças, com dedicação à profissão, podiam obter bons ganhos monetários e, em vésperas de casamento, podiam custear o enxoval. Os bens familiares da futura casa familiar, costumeiramente, eram adquiridos com esses ganhos. As senhoras costureiras, em diversos exemplos, complementavam os orçamentos domésticos, prestando serviços de costura a terceiros. Algumas moradias, em certas circunstâncias, adquiriam aparência de confecção, quando diversas agulhas, linhas, máquinas e tecidos espalhavam-se pelos inúmeros espaços residenciais. As contínuas visitas igualmente sucediam-se no desenrolar dos dias, pessoas iam e vinham. Os diálogos, neste ínterim, tomavam forma e os diversos acontecimentos e assuntos comunitários eram debatidos e difundidos. Um chimarrão, com alguns doces caseiros, circulava no ambiente, entretanto, as visitantes costumeiramente não se esqueciam de dar uma olhadinha no modelo de tecido ou vestido das amigas e concorrentes. As costureiras costumavam até comentar as inovações que podiam advir de novas modas.
As profissionais, mesmo com os ganhos e o “permanente clima recreativo”, não atuavam muitos anos na atividade, porque esta cansava excessivamente. Sucediam-se períodos com massivo trabalho, quando a labuta gerava um excessivo cansaço. Estas, durante dias e noites inteiras, ficavam em cima das tarefas e acabavam enjoando da profissão. As costureiras dedicavam-se à produção agrícola, quando uma nova candidata abraçava os pedidos. Esta parecia reescrever a trajetória, até que, nalgum instante, também desistia.
A derrocada definitiva das profissionais adveio nas décadas de setenta e oitenta, devido a propagação das indústrias de confecção nacional, que ofereciam e vendiam as vestimentas prontas. Elas tornaram mais econômico o produto e as costureiras não puderam competir neste mercado. Ceifou-se, desta forma, mais uma intensa e tradicional atividade pré-industrial rural, que é razão de diversas saudades e reminiscências.



* Fonte: Disponível no livro "OS COLONIZADORES DA COLÔNIA TEUTÔNIA: COLETÂNEA DE TEXTOS", páginas 214 e 215, de Guido Lang.


* Postagem: Júlio César Lang.


* PROIBIDA A REPRODUÇÃO INTEGRAL OU PARCIAL DO TEXTO SEM A MENÇÃO DA REFERIDA FONTE (LEI Nº 9.610, DE 19 DE FEVEREIRO DE 1998).

quarta-feira, 8 de julho de 2020

AS PARTEIRAS COLONIAIS

Guido Lang

Um trabalho audacioso e sublime foi praticado pelas parteiras coloniais, que assumiram a tarefa de auxiliar a "dar a luz" as mulheres gestantes. Estas parecem esquecidas na literatura e nas reminiscências comunitárias, pois, com a modernização e popularização dos recursos médicos e hospitalares, desapareceram do meio rural. Elas, no entanto, durante décadas, prestaram um imenso serviço social, auxiliando na perpetuação do gênero humano. Inúmeras vidas foram salvas graças aos seus conhecimentos higiênicos e medicinais, entretanto, na maioria dos casos, labutaram em meio a uma precariedade de recursos. Elas não mediam distâncias e esforços, mesmo, na calada da noite ou nas adversidades do tempo, tratavam em dar curso a algum nascimento emergencial.
As parteiras, costumeiramente, moravam esparsadamente no meio rural, sendo que uma prestava serviço para diversas localidades num raio de quilômetros. Elas, em diversas situações, ficavam de sobreaviso, quando havia alguma mulher em final de gestação; noutros momentos eram chamadas com emergência. Algum pai ou vizinho da parturiente tratava de apanhá-la às pressas e encaminhá-la à casa da gestante. Ela, neste contexto, precisava percorrer enormes distâncias à cavalo, deixando de lado afazeres particulares e horários. O importante consistia em dar vazão à vida.
As “profissionais” não tinham maior especialização teórica, que inexistia naquela época e situação. Os conhecimentos advinham da prática e eram assimilados a partir da convivência com uma antecessora. As parteiras idosas, com dezenas ou centenas de serviços prestados e décadas de atuação, tratavam de ensinar uma sucessora à medida em que suas forças se esvaíam. A escolha podia recair nalguma moça da família, quando havia interesse e vocação pela penosa tarefa; noutros momentos, diante do desinteresse familiar, podia cair nalguma parente ou vizinha. Esta, durante a aprendizagem, era destacada como auxiliar, e progressivamente ia assimilando e dominando os diversos segredos. Vivenciar um parto tornava plenamente possível a atuação, e, na medida da eficiência e dos resultados positivos, sua fama “corria o mundo circunvizinho”. Algumas famílias, neste ramo, adquiriram fama e reconhecimento comunitário e o trabalho passava de herança de avó, mãe, filha e neta.
As parteiras, em algumas ocasiões, precisavam passar dois a três dias nalguma casa familiar devido a partos transcorridos com dificuldades. Elas tratavam de atender o recém-nascido e a mãe, quando havia riscos de vida. Os cuidados com a limpeza interna da genitora e do umbigo do recém-nascido eram imensos devido às possibilidades de infecção e sangramento. As massagens e tratamentos faziam-se necessários. Ela só partia depois da plena recuperação da mãe e do nenê. Alguma familiar ou vizinha tratava de auxiliar a família, ajudando a parteira nos trabalhos complementares ao parto, ocupando-se com a limpeza da residência, procurando cozinhar, etc... Esta pessoa permanecia por mais tempo na moradia, podendo ficar semanas ou meses (conforme o restabelecimento da mãe e da saúde do recém-nascido).
As crianças e maridos não podiam presenciar os trabalhos de parto: a presença feminina assumia completamente o quarto. As crianças, costumeiramente, eram deixadas nalguma família, a permanência podia ser por horas ou dias. Elas, com alguma antecedência, eram avisadas da chegada da “cegonha do banhado”, que traria um novo membro para a família. As explicações, no entanto, nunca entravam em detalhes, eram “guardadas a sete chaves”. Os maridos nem tomavam conhecimento dos serviços das parteiras, que se sucediam unicamente no meio feminino. A ética social da época inviabilizava maiores curiosidades ou interrogações sobre o majestoso trabalho.
As parteiras coloniais, portanto, prestaram um importante e sublime serviço social em meio ao contexto de carências médicas e de recursos financeiros. Os seus conhecimentos suplementaram os instintos maternos e a vazão natural da vida. Estas ostentavam uma vocação à existência humana, sendo que não poupavam distâncias e energias para auxiliá-la a multiplicar- se.

* Fonte: Disponível no livro "OS COLONIZADORES DA COLÔNIA TEUTÔNIA: COLETÂNEA DE TEXTOS", de Guido Lang.

* Postagem: Júlio César Lang.

* PROIBIDA A REPRODUÇÃO INTEGRAL OU PARCIAL DO TEXTO SEM A MENÇÃO DA REFERIDA FONTE (LEI Nº 9.610, DE 19 DE FEVEREIRO DE 1998).

sexta-feira, 3 de julho de 2020

A APRECIAÇÃO DOS FRUTOS


Guido Lang

O ancião, na inteira essência, peleou pesado na subsistência familiar. A carestia, na infância e adolescência, viu-se vivenciada. As sobras, em décadas de economia, permitiram comprar morada e terra. Os filhos, no possível, foram gerados no sensato conforto e receberam de vida a educação/formação. As primaveras, nas agitações e atropelos, transcorreram rápidas na direção dos sessenta anos. O momento real sinaliza escasso tempo na ocorrência do derradeiro repouso. O princípio, nos legados, assiste em “fechar com chave de ouro”. O intento no escasso tempo (de “serão”) advém em usufruir das conquistas e realizações. O principal passatempo subsiste em conviver com os netos e conversar com os conhecidos. Os trabalhos, em rotineiros, acontecem em singelos afazeres. O empreendedorismo, em novas iniciativas, ganhou pausa. Os filhos, nos sustentos, convêm “caminhar nas próprias pernas”. O propósito no desfecho da vida consiste em “levar horas mansas”. O prazer na sobrevida acende em apreciar os instantes. As coisas num dia terminam (inclusive na própria vida).

* Fonte: Guido Lang (Livro "Ciência dos Antigos").

* Crédito da imagem: https://kdfrases.com/frase/156669.

* Postagem: Júlio César Lang.

* PROIBIDA A REPRODUÇÃO INTEGRAL OU PARCIAL DO TEXTO SEM A MENÇÃO DA REFERIDA FONTE (LEI Nº 9.610, DE 19 DE FEVEREIRO DE 1998).

* Sugestões de páginas de leitura:
http://teutoniaemhistoria.blogspot.com/
http://guidolang.blogspot.com/


terça-feira, 23 de junho de 2020

O ATAQUE DOS GAFANHOTOS

A imagem pode conter: planta, grama, flor, atividades ao ar livre, natureza e água

Guido Lang

A memória comunitária mantém viva os acontecimentos ligados ao ataque de gafanhotos que, em forma de nuvens, atacaram o Sul do Brasil. A voracidade do inseto de imediato salientava-se e os vegetais acabavam devorados num ritmo assustador. O avanço do ortóptero constituía-se numa realidade comum até a década de 40 do século XX e, aos olhos da atualidade, descrevia uma cena inimaginável. Teutônia não se viu privada de insetos saltadores que, como consequência, descreviam um quadro de devastação e fome. Animais e homens, após a partida, deparavam-se com a "terra arrasada". 
A colônia de Teutônia, nos anos de 1906 e 1948, viveu uma tragédia incomum que ligou-se ao ataque do gafanhoto-de-praga (Schistocerca paranaensis). A agricultura e pastoreio viu-se devastada, quando os potreiros acabavam digeridos pela praga. O avanço dos insetos descrevia uma cena ímpar, quando o céu escurecia e o sol desaparecia em função da quantidade de invasores. O zunido, em meio à invasão, parecia ensurdecedor, quando afluíam nuvens da praga. Os seres vivos maiores, nestes instantes, procuravam refugiar-se nos seus esconderijos porque temiam as pernas ásperas (responsáveis por sensações repugnantes na pele). Os caminhantes descuidosos, apanhados de surpresa numa nuvem de gafanhotos, necessitaram deslocar-se de ré com vistas de não serem atingidos e feridos na sua visão. 
O gafanhoto constituía-se, nas suas características, num inseto de antenas curtas, mantinha órgãos auditivos situados lateralmente na base do abdômen, possuía tarsos triarticulados, revelava-se ovapositor curto... O tamanho, no período adulto, podia medir até 6,5 centímetros de comprimento. A coloração apresentava-se num castanho-avermelhado. O par de pernas posterior apresentava-se muito forte, longo e provido de farpas. Os indivíduos adultos chegavam a voar e deslocavam-se em grandes grupos. As nuvens, numa situação catastrófica, chegavam a depredar plantações inteiras. O número de espécies são variáveis e continuam a habitar diversos climas e continentes. O gafanhoto-de-praga, no Brasil Meridional, era o mais comum quando, com alguma frequência, atacava a região. 
Os comentários populares, através de conversas informais, mantém viva as histórias das catástrofes que abateram-se nas zonas agrícolas. A fome do inseto parecia insaciável, porque desde o amanhecer até o anoitecer, viviam comendo. Parava unicamente na medida da ausência da alimentação. As folhagens, de um modo especial, pareciam "uma sobremesa predileta", na qual comiam até os talos. O solo, após o ataque, revelava-se uma terra destruída no qual carecia-se de qualquer verde. A cena apresentava-se como o de um desastre ecológico, no qual sobrou muitíssimo pouco para contar a história. A voracidade era tamanha, que até chegavam a digerir as cascas das árvores das espécies cítricas (bergamoteiras e limoeiros). Os animais, principalmente cavalos e gado, ficavam sem opção de alimentação, pois consumiu-se as gramíneas. Algum cereal armazenado ou feno estocado poderia, neste dias dramáticos, revelar-se salvação contra a completa ausência de víveres. 
A colonada, dentro das acentuadas limitações, procurava oferecer algum combate, que surtia escassos efeitos. As alternativas principais constituíam-se nas queimadas de vegetais que reduziam a quantidade de indivíduos e a fumaça que espantava centenas de milhares de invasores. O volume de insetos porém, parecia infindável, no qual fazia pouca diferença a eliminação de uma boa parte deles. O emprego de lança-chamas e construção de fossas-armadilhas (para os insetos jovens) eram outras tentativas de combate. A guerra parecia sempre perdida, quando nem adiantava com lona de pano, proteger quaisquer culturas. O bicharedo entrava em qualquer buraquinho. Entrava e comia a totalidade das plantas. As chuvas, de maneria geral, inibiam o avanço da praga quando os desastres se acentuavam. A colocação de ovos tornava-se uma realidade quando, em alguns dias, advinha a proliferação da espécie. 
Os ventos levavam e traziam a praga para os diversos rincões, quando então os morros sumiam da vista panorâmica. Os órgãos públicos, através da municipalidade estrelense, procuravam auxiliar no combate que, até o advento da pulverização química, parecia desperdício de recursos e tempo. Alguns esporádicos agricultores, corajosos na iniciativa, procuravam fabricar venenos caseiros à base de folhas de cinamomo. Combatiam os insetos com panos amarrados em ripas, que batiam rente ao solo. A maioria da colonada unicamente tivera o desgosto de apreciar o flagelo, que acentuava as preocupações com a subsistência familiar. As opções viáveis após o desastre, consistiam em replantar algumas culturais anuais, no qual o feijão e o milho assumiam o cerne das preocupações. 
As invasões de gafanhotos extinguiram-se com as pulverizações áreas, que minaram a área de proliferação acentuada no deserto da Patagônia/Argentina. Encerrou-se, desta forma, um capítulo desastroso que tamanhos prejuízos causou durante décadas no meio rural. 
As jovens gerações não conseguem fazer a mínima ideia daqueles desastres, que eram um terror no meio colonial. Os relatos, no entanto, continuam vivos na memória comunitária, quando os moradores viram-se repentinamente com a destruição e miséria. Os gafanhotos foram uma problemática num determinado contexto sócio-econômico, quando "os ventos da inovação científico-tecnológica" ceifaram aqueles dias tenebrosos. A sociedade, na atualidade, possui outros dilemas que nalgum dia a semelhança dos insetos serão mera história. Estes, entre outros muitos, relacionam-se a massiva produção de lixo, poluição acentuada do arroio Boa Vista, diminuição da fertilidade dos solos... Precisa-se encontrar alternativas às problemáticas que, como outra praga, custam a chegar em determinados momentos e situações. 

* Fonte: Jornal O Informativo de Teutônia, página 04, seção "Histórias Coloniais - Parte 42", de 14 de fevereiro de 1996. Autor: Guido Lang

* Postagem: Júlio César Lang

* PROIBIDA A REPRODUÇÃO INTEGRAL OU PARCIAL DO TEXTO SEM A MENÇÃO DA REFERIDA FONTE (LEI Nº 9.610, DE 19 DE FEVEREIRO DE 1998).

OS PRIMEIROS MOTOCICLOS



Guido Lang

Os motociclos (motos) foram importados nos primórdios dos anos sessenta pelas colônias teutonienses. A marca Jawa, originária da Tchecoslováquia (atuais República Tcheca e Eslováquia), era a grande novidade tecnológica nas estradas de chão batido, que iam conhecendo uma revolução nos transportes.
A introdução de automóveis, caminhões e motociclos foi suplantando o tradicional transporte equino, que tinha cumprido sua função histórica. Unicamente os colonos mais afortunados podiam dar-se o luxo e o privilégio de adquirir os primeiros veículos automotores, que eram vistos como símbolos de modernização e progresso. Os esporádicos proprietários eram muitíssimo admirados e invejados em função do status econômico, porque poucos davam-se o direito de investir uma pequena fortuna pessoal na compra de uma motocicleta.
Os primeiros acidentes também tomaram forma “nestes cavalos sobre rodas”, que corriam e exigiam equilíbrio. As habilidades na direção necessitavam de prática, no que os potreiros eram os ambientes propícios para exercitar os exames preliminares de direção. 
Os motociclistas, cedo ou tarde, envolviam-se em acidentes, pois não faltavam areia, barro, buracos ou pedregulhos “para levar uns bons tombos”.
A indumentária de proteção era desconhecida para os motoristas. Capacete, luvas, roupas de couro, foram ignorados até pelas normas elementares de trânsito. Unicamente a baixa velocidade evitou maiores tragédias que pudessem ter roubado vidas humanas. A precariedade das estradas impedia o desenvolvimento de maiores velocidades, que, no máximo, chegavam aos 60 km horários. O transporte de caroneiros e mercadorias, em função do peso, eram também empecilhos para corridas mais velozes.
Um motociclista, num belo dia, resolveu passear com sua amada esposa. O passeio foi até a vila próxima, pois o casal almejava apresentar o veículo recém adquirido. Os amigos, conhecidos e vizinhos admiravam e falavam sobre os recém motorizados. O piloto, com o maior orgulho e sem muita habilidade na direção, passeou pelo vilarejo e sua senhora “estufava o peito e empinava o nariz”. A caroneira, “num imenso grau”, nem se segurou e, numa distração, voou do motociclo e sentou-se em meio a estrada da vila. O esposo passou por um buraco e o assento escapou do traseiro da mulher. Os pedestres encheram-se de comentários e gargalhadas porque “o querer mostrar-se é uma virtude dos imbecis”.
A humildade e a simplicidade precisam ser cultivadas em todos os nossos atos diários.

* Fonte: Disponível no livro "OS COLONIZADORES DA COLÔNIA TEUTÔNIA: COLETÂNEA DE TEXTOS", de Guido Lang.

* Postagem: Júlio César Lang.

* PROIBIDA A REPRODUÇÃO INTEGRAL OU PARCIAL DO TEXTO SEM A MENÇÃO DA REFERIDA FONTE (LEI Nº 9.610, DE 19 DE FEVEREIRO DE 1998).

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quarta-feira, 10 de junho de 2020

PRÉDIO DA LOJA MAÇÔNICA "LUZ DE TEUTÔNIA" EM GLÜCK-AUF (BAIRRO CANABARRO - TEUTÔNIA/RS)


O prédio localizava-se ao lado do cemitério evangélico. A maçonaria está difundida em todas as grandes cidades do Brasil, dos Estados Unidos e principalmente da Europa. No Bairro Boa Vista (Teutônia/RS), também havia uma sede maçônica, chamada de “Rosa de Teutônia” (distinta da loja de Canabarro, denominada de "Luz de Teutônia"). Ano da foto: 1912. Segundo fontes locais, os prédios posteriormente foram desmontados e suas pedras aproveitadas em outras construções nos bairros.

* Fonte: Disponível no livro "OS COLONIZADORES DA COLÔNIA TEUTÔNIA: COLETÂNEA DE TEXTOS", de Guido Lang.

* Crédito da imagem: Guido Lang.

* Postagem: Júlio César Lang.

* PROIBIDA A REPRODUÇÃO INTEGRAL OU PARCIAL DO TEXTO SEM A MENÇÃO DA REFERIDA FONTE (LEI Nº 9.610, DE 19 DE FEVEREIRO DE 1998).

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terça-feira, 9 de junho de 2020

EVOLUÇÃO DAS LINHAS DE LEITE


Guido Lang

As localidades, a partir da década de trinta, conheceram um serviço rural, que passou a redimensionar a atividade produtiva e a vida social de inúmeras comunidades interioranas. O trabalho de escoamento de leite tomou impulso ao implantar-se contínuas melhorias de locomoção e transporte. O volume da produção, em substituição ao outrora mercado da nata, exigiu inovações que fizeram-se ao longo das décadas. Uma casta de novos ricos aflorou com a produção leiteira, enquanto a massa produtora de leite não acumulou maiores divisas financeiras; os interioranos, como de praxe, conseguiram poucos recursos advindos de uma penosa labuta.
As primeiras linhas de leite, curiosamente, começaram mediante o transporte equino. Algumas latas eram amarradas na sela dos animais. Os recipientes eram enchidos num ponto comum e em seguida, de carroça, eram escoados em direção aos laticínios. A vantagem desse transporte era relacionado ao fácil acesso, pois quaisquer becos de chão batido eram alcançáveis. Os caminhos da roça eram percorridos com a finalidade de escoar algumas dezenas de litros. Os transportadores, desrespeitando as intempéries e costumeiramente acompanhados de alguma cachorrada, tratavam de fazer o penoso serviço. Não acumulavam, porém maiores dividendos com a labuta. Faziam, no entanto, boas amizades e relações sociais no contexto da colonada.
Os carroceiros de leite foram a segunda etapa do processo produtivo. Com um conjunto de quatro a seis animais (burros ou bois) iam juntando o produto na picada. Um maior número de produtores exigiu uma ampliação dos volumes carregados, assim o transporte equino tornava-se antieconômico. Algum leiteiro, tendo de dez a vinte latas na carroça, tratava de apanhar e juntar o produto, e “o negócio da comercialização d’água” podia correr solto. A exclusão social tomava-se uma realidade devido a descoberta de falcatruas. O carregador, em média, levava meio dia para percorrer o percurso de meia dúzia de quilômetros, que estendiam-se da sua casa até a “nataria”. Este, igualmente, não acumulou nada de expressivo com o serviço que mal e mal deu para o sustento familiar: alguma criação e plantação complementava as exigências de sobrevivência. 
O caminhão leiteiro se tornou a terceira empreitada, no qual podia-se carregar alguns milhares de litros e percorrer diversas dezenas de quilômetros. Os leiteiros começaram a ostentar uma expressão econômica e social destacada, ganharam dinheiro, fama e influência. Estes tornaram-se o elo entre produtores e empresas, pois, além de levar o leite, tratavam de trazer mercadorias. O transporte de rações e produtos diversos passava pelo veículo automotor, abrindo assim uma espécie de transportadora rural. Os dividendos financeiros, desta forma, que afluíam de diversos meios, puderam oferecer um bom nível de vida: uma residência confortável, um bom carro, renovação periódica do caminhão, compra de novas linhas de leite eram possibilidades.
O leiteiro e sua família eram figuras chaves nas festas familiares de confirmação e casamento. Ele, costumeiramente, era um dos primeiros convidados, pois atendia aos diversos moradores da comuna. O seu caminhão de leite, em costumeiras oportunidades, parecia mais uma linha de ônibus, do que um escoador da produção colonial. As caronas de produtores, diante da ausência de linhas de ônibus ou o desejo de não custear as passagens, eram corriqueiras e a cabine era muitíssimo disputada. Algumas senhoras, esposas de produtores, até adquiriram fama, porque, com extrema frequência, utilizavam-se do serviço; algumas tinham a preferência de sentar próximo ao motorista-proprietário, e os boatos de casos amorosos tomavam vulto.
Os caminhões-tanque são a recente inovação, pois primam pela eficiência e higiene do carregamento. Eles são frutos das inovações mercadológicas, porque o mercado busca a racionalização de custos diante dos desafios da concorrência e da integração econômica. Estes precisam escrever sua epopeia do escoamento de leite, pois, à semelhanças do transporte equino, carreteiro de bois e caminhão de leite, inscreveram sua saga no contexto colonial. As linhas de leite, portanto, tiveram expressiva importância, pois foram fatores de uma redimensão das atividades produtivas da lavoura minifundiária de subsistência, como também razão de inúmeras reminiscências de acontecimentos rurais.

* Fonte: Disponível no livro "OS COLONIZADORES DA COLÔNIA TEUTÔNIA: COLETÂNEA DE TEXTOS", de Guido Lang.

* Crédito da imagem: Rudolfo Geib, morador da Boa Vista Fundos/Teutônia/RS, transportando a produção de leite até a Boa Vista, na fábrica de manteiga "Dahmer & Cia", onde o produto era desnatado. Anos de 1940 (Gentileza - Rudolfo Geib).

* Postagem: Júlio César Lang.

* PROIBIDA A REPRODUÇÃO INTEGRAL OU PARCIAL DO TEXTO SEM A MENÇÃO DA REFERIDA FONTE (LEI Nº 9.610, DE 19 DE FEVEREIRO DE 1998).

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