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quarta-feira, 18 de setembro de 2019

O criatório urbano

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Guido Lang

O morador, em filho das colônias, convive no massivo asfalto e concreto. As oportunidades, na migração campo cidade, viram-se alcançadas na metrópole. Este, no modesto pátio, ensaiou criatório nativo. Os tratos, em mistura de ração de grãos, vêem-se espalhados pela calçada. As aves, em coiviras, joões-de-barro, pombinhas, pombos e sábias, afluem no contínuo. As espécies, em aparentes "monstros na cidade", teimam sobreviver com novos hábitos. O tratador, nas reminiscências, encontra inspiração e satisfação. O hábitat, em calçadas, gramado e horta, soma-se junto à morada. A fauna, em cantos e recantos, aflui no constante atrativo. Os pássaros, na semelhança dos humanos no dinheiro, direcionam conduta no sentido do sustento. A natureza, de alguma maneira, preserva sementes dos próprios no ambiente.

Vivências Urbanas

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O espelho do caráter

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Guido Lang

Os ancestrais, nas primeiras impressões, “fisgavam” a psique alheia. Os moradores, em proprietários rurais, viam-se avaliados pelo capricho e organização (no externado pelas aparências). Estes, na organização familiar, extraíam o apego ao labor. O retratado, na casa e pátio, descrevia o nível da evolução cultural. O trato, em lixos e utensílios, despontava no estado educacional e emocional. O estirado, no variado, apontava o descalabro vocacional. O desleixado, em brejos, madeiras e pedras, revelava ambiente descuidado. A sorte, no auto-abençoado, sobrevém no descaso. O afeiçoado,  no atribuído valor ao conquistado,  costuma ter lugar de guarda para cada coisa. O bem, em requerido na utilidade, encontra-se de imediata localização. O externado, nas entrelinhas dos afazeres, desnuda o real estado do espírito. O descuidado, no geral, sucede num azarado.

Ciência dos Antigos

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quarta-feira, 11 de setembro de 2019

A concepção do inferno

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Guido Lang

O modesto filho das colônias, na essência dos anos, transcorria no problema da friagem dos pés. Os membros, em resfriados, externavam ares de adoentado ente. O aquecimento, no possível, transcorria no fogão a lenha ou na "montanha de cobertores" de cobertura. Este, na sensata idade, foi "bater as botas". A esposa, em habitual companheira, foi categórica no velório: "- Ainda bem que no inferno diz ser muito quente. O amado deixará de passar costumeiro frio nos pés". O conceito, em céu e inferno, sobrevém na imaginação de cada indivíduo. Ninguém retornou das sombras na razão de relatar as facetas das trevas. A pessoa, no definido na concepção religiosa da infância, carrega crenças pela essência. As igrejas, em entidades da fé, comercializam ideias em serviços. As pessoas, com a racionalidade, muitas vezes temem desafiar dogmas.

Coleção: Ciência dos Antigos

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O segredo da longevidade

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Guido Lang

Os antigos, no criado e entalhado das colônias, mantinham ciência empírica da longevidade. A vida, em dádiva, assistia-se no maior dom. A maneira, em acrescer dias no decurso da biografia, requeria algumas precauções. Estes, em geral, acudiam em resguardar-se das friagens, dormir cedo e na medida necessária ao organismo  (estimadas oito horas diárias), exercitar corpo com massivas caminhadas  (em detrimento do sedentarismo), ostentar alimentação parca (no extremo necessário à subsistência)... Os espaços úmidos, em insalubres, sobrevinham tolhidos (em especial na edificação de prédios). A ampla insolação, em variados ambientes, transformava os lugares nos mais saudáveis ao ser humano. O convívio, no contexto do sereno, assistia-se deveras indigesto. O trabalho externo, no meio das precipitações, advinha abolido (no possível). Os exemplos, em senhores de oitenta anos, eram comuns nas paragens rurais. "A pessoa, na vida, colhe aquilo que alimenta/planta no decurso". O Criador abençoa na dimensão dos empenhos, desígnios e tarefas.

Coleção: Ciência dos Antigos

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segunda-feira, 9 de setembro de 2019

O momento sagrado

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Guido Lang

A sensata vovó, em vivente das colônias, convive no dilema dos filhos e netos. Estes, nas excepcionais reuniões familiares, assentam na mesa (em almoços e jantas). Os sucessores, no imediato, improvisam acaloradas discussões. Os manos (irmãos) e primos, no possível, tentam ajustar arestas naquela inconveniente hora/ocasião. Os demais, no horário, pipocam pelos espaços ou dedicam tempo aos utensílios virtuais. As divergências, em tamanhas, conduziram na supressão das confraternizações. Cada qual, no rumo da vida, segue sua sina de interesses e oportunidades. O instante, na bênção da mesa farta, acorre em momentos sagrado. A boa digestão, na degustação dos alimentos, requer serenidade e silêncio. O convívio, na falta de limites, conduziu na libertinagem e respeito em baixa.

Coleção: Ciência dos Antigos


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O procedimento rural

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Guido Lang


O velho colono, no seu Lothário, sobrevinha num ente talhado na labuta braçal. A propriedade familiar, em ares de ermos de linha (localidade), assistia-se no espaço da “extração do pão”. As atividades, em criações e plantações, ensinavam manhas aos filhos. Estes, na tenra idade, sobrevinham em auxiliares dos pais. Pequenas tarefas, no generalizado e progressivo, eram atribuídas aos filhos (na incumbência de ensinar o apego e valor do trabalho). Uma lição básica, na circulação pelos ambientes agrícolas, sucedia em absorver/ocupar as mãos. O trabalhador, no retorno às instalações, precisaria sobrevir carregado em frutos da terra. Os exemplos, nos diversos, poderiam ser em forragens, frutas, lenhas... As mãos, no retorno em vazias, sinalizavam desapego ao ofício. O trabalho, em “formiguinha”, abreviava caminhos e ganhava tempo. Cada ente vê-se perito no seu “ganha pão”. Aquele que aufere sustento na vocação ganha-o nos ares de brincadeira.

Coleção: Ciência dos Antigos

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A progressiva tratoração

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Guido Lang

A mecanização, nas encostas e morros, avança a passos largos. O arado de boi, no definitivo, cedeu espaço a gradeação das lavouras. As pequenas propriedades, em estreitas e compridas (fruto dos sucessivos espólios), acorrem no massivo aplainamento das modestas áreas. As pedras e tocos, nas retroescavadeiras e tratores de esteira, costumam ser extraídas e removidas ao "escanteio" como obstáculos a mecanização. A tratoração, no plantio direto, supre outrora trabalho animal/braçal. Os produtores, no ceio das melhorias, inspiram-se na introdução de inovações. O intento, na dimensão das disponibilidades financeiras, é não ficar atrasado na evolução. Os espaços íngremes, em toda safra, auferem redução e conhecem acréscimos de plantios. A revolução agrícola, nas outrora antigas colônias, processa-se acelerada nos muitos interiores. As propriedades, em subsistência, acorrem em aparências de empresas familiares. O lema subsiste em abolir/reduzir o esforço braçal e pouquíssimos agricultores produzirem no adoidado.

Coleção: Ciência dos Antigos 

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sábado, 24 de agosto de 2019

O dono da razão


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Os antigos, nas ocorrências das linhas/outrora picadas, contam história da azarada senhora. Ela, nos relatos da tradição oral, mantinha deveras azar com maridos. Esta, na trajetória da essência, enterrou quatro maridos. O quinto, em pretendente de companheiro, “correu da raia no pé frio” (numa maior relação íntima). O infortúnio, em transcorrido meio século, ficou na penumbra. As reformulações, em cemitério comunitário, requereram abertura de tumbas. O trabalho incluiu no par de parceiros. Os crânios, no furo de preguinho no osso traseiro, revelaram assassinato. A ente, no sono, dera jeito de executar obra macabra. A assassina, na Justiça, prestou pena a consciência e Criador. O tempo, na verdade dos fatos, costuma ser o dono da razão. As mentiras carecem de ser eternas.

Guido Lang
Ciência dos Antigos

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A extensão dos ganhos

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O cliente, instruído na ciência econômica dos antigos, edificou morada.  O ente, tendo esposa e filho, precisou de dois quartos na casa. Este, na aversão do desperdício e ostentação, construiu o estritamente necessário. A economia, em material e trabalho, possibilitou mais reservas (na manutenção e tributação). O idêntico, na compra do veículo, sobreveio nos trâmites. Um modelo, no popular, atendeu suas necessidades de circulação. Os custos, na manutenção, sobrevieram no menor ônus. A estabilidade, na modéstia, sucedeu em tranquilidade. Os dispêndios, sob controle, descrevem sabedoria financeira.

Guido Lang
Ciência dos Antigos

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O espaço privilegiado


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O rural, no contexto da propriedade, aproveitou espaço avantajado. O ambiente, em singelo cerro, sobrevinha na iluminação solar privilegiada. Os primeiros aos últimos raios, na sucessão dos dias, sucediam  em bênção no lugar. A morada, na orientação dos antigos, viu-se erguida na recomendação. Quaisquer habitações, em iluminadas e ventiladas, trazem bons agouros. O astro rei, na natureza, sobrevém no melhor desinfetante. Os micróbios, em causadores de patologias, acorrem inibidos. As abelhas, em cachopas no forro, instalavam-se nas precoces horas. A conduta, na vivência milenar, ratificou ambiente excepcional. Os ocupantes, em gerações, estiveram imunes a maiores infestações e pestes. Achar um recanto especial para habitação sucede em um abençoado tesouro.

Guido Lang
Ciências dos Antigos

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quarta-feira, 14 de agosto de 2019

O Cachorro Raimundo

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A pergunta, em curiosidade comunitária e inútil, perpassou conversa dos varões. Eles, na "flor da idade", atentaram na formosura da afamada Rosalina. Ela, nas andanças,  fazia "parar o trânsito ". A cachorrada, em máscula, fazia fila para "avançar na fruta". Os convites e propostas, na tentativa da doação, foram infindáveis. A idade perpassou nos muitos amigos e conhecidos. O ocasional reencontro, num evento, levou na divagação. Quem deflorou a cobiçada moça? A maneira, em elucidar enigma, foi interrogar sensato ancião. Ele, em  talhado nas vivências de botequim, deu seu veredito. O "Cachorro Raimundo", em más línguas de "ferramenta de metro", convenceu do desejo carnal. As conversas, em bêbados, enfocam as mais esdrúxulas concepções e ocorrências. Alguém, nas notícias, sabe das transpassadas vivências.


Guido Lang
Crônicas das Ciências dos Antigos

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A mãe da engenhosidade

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O colonial, na formação escolar, manteve parcos anos de escola primária/rural. As noções básicas,  em matemática e português, foram assimiladas no "tranco" (no contexto da fala familiar no dialeto). O  professor, no rigor da instrução germânica, "enfiou números goela abaixo". O ente, em Lothário Lang (1927-1990), desmontou um chiqueiro e paiol. O prático, na tarimba da força braçal, mostrou habilidade ímpar. As peças, em centenas e no progressivo, sobrevinham numeradas (no conjunto). A remontagem, em novo espaço da propriedade, sobressaiu numa facilidade. O rural, em carpinteiro improvisado, parecia dar aula aos peritos do ofício. A praticidade, em exercício,  sucedia em aparência de "faz de tudo" ("marido de aluguel"). As dificuldades, em contratações, sobrevinham  no esteio da própria execução. A necessidade, na falta de grana, costuma ser mãe da engenhosidade.

Guido Lang
Crônicas das Ciências dos Antigos

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A maior burrice

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A beltrana, na velhice, paga "pato" da ingenuidade da adolescência. Ela, na imprudência, arrasta-se pelas clínicas e consultórios. A maturidade, nos sessenta anos, calha em conselho aos tontos. A explanação, em maior burrice da essência, foi ter alocado primeiro  cigarro na boca. As sequelas, nas necessidades de nicotina, acudiam no maior flagelo. A carreira, em fumante, significou autodestruição da saúde.  O lamento, no arrependimento, transcorreu na velhice. Se a lástima matasse ela estaria morta na certa. O princípio,  em querer estar na moda/moderna, conduziu num "presente grego". Os humanos, no conjunto dos semelhantes, prezam pela aceitação e reconhecimento. O ônus, nos absurdos e abusos da juventude, sucedem em dores na velhice.

Guido Lang
Crônicas das Vivências Urbanas

Crédito da imagem: https://oimparcial.com.br/

quarta-feira, 7 de agosto de 2019

Nas trilhas dos antepassados

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Guido Lang

O Morro da Catarina, com altitude de 416 metros e localização no interior de Teutônia/RS, revela-se um patrimônio florestal e santuário ecológico ímpar.
A cobertura vegetal viu-se poupada da ganância colonizadora em função das dimensões dos prazos coloniais e elevação do terreno. Os lotes continham 150.000 braças quadradas, que, nos termos da Europa, era um latifúndio. Os pioneiros, como Wenzel Reckziegel, Joseph Tischer Senior e Júnior, Wilhelm Scharig, Franz e Stephar Tischer, Jacob Lang, Adolf Eggers, Wilhelm Jung, Claus e Heinrich Damann, Nicolaus Nielsen, Heinrich Hatje, August von Scheven..., trataram de devastar os vales e deixaram como reserva florestal as encostas dos morros. Eles certamente ficaram impressionados com a imensa Floresta Pluvial Subtropical, que ostentava centenárias e ímpares espécies de árvores. Uma riqueza, entre outras, de açoita-cavalos, angicos, cabriúvas, camboatás, canelas, canjeranas, cedros, coticeiras, figueiras, gerivás, grápias, guabirobas, guajuviras...
Inúmeras picadas, abertas a base do facão e foice, sucederam-se para conhecer o tesouro vegetal, que cada dono ostentava. Estes caminhos, de alguma forma, preservaram-se e permitem retomada. O forasteiro ou morador, na atualidade, incursiona trilhas, quando maravilha-se com a exuberância da vegetação, diversidade de vida, tamanho de troncos... O aventureiro tem a noção de retornar aos primórdios da colonização alemã, quando a floresta, com seus animais, era a real proprietária do espaço.
Exemplares raros e volumosos troncos sobreviveram à hecatombe da extração. Umbus abrigam seres no interior dos ambientes secos. Salientes cipós, com tamanhos de arbustos, entrelaçaram-se entre galhos e troncos. Vertentes brotam para iniciar regatas do curso do Arroio Boa Vista e Arroio Vermelho. Um tapete de folhas, em decomposição, realimenta a fertilidade do solo. As sementes, em meio à umidade, germinam para fazer desabrochar a vida. Cantos, de infinidade de seres, espalham-se pelo cenário nativo...
Os proprietários, herdeiros dos patriarcas, preocupam-se em manter intacto o ambiente, que, com o abandono dos minifúndios (com o cultivo de culturas anuais), vê-se rejuvenescido com o acréscimo de áreas. Os matos, do Morro da Catarina, provavelmente ostentam-se como a maior “Floresta de Teutônia/RS”, quando, como herança aos sucessores, é uma espécie de “parque natural privado”.

* Proibida à reprodução do conteúdo sem a menção do nome do autor do texto. 
LEI N° 9.610, DE 19 DE FEVEREIRO DE 1998.

Crédito da imagem: https://www.infoescola.com/geografia/clima-subtropical/

quarta-feira, 31 de julho de 2019

Os passarinhos


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Guido Lang

Um criador tinha paixão pelo canto dos passarinhos, que, na sua virtude, depararam-se com um pretexto para prisão. Este, no cotidiano da moradia, ostentava um viveiro de aves, quando gaiolas viam-se penduradas nos cantos e recantos do espaço. Os canarinhos, coiviras, sabiás, papagaios, periquitos, pintassilgos mantinham suas histórias, que relacionavam-se a aquisição, caça, procriação, trato.. O criador gastava dinheiro e tempo no criatório, porém o prazer de ouvir o canto aliviava-lhe o peso dos encargos.
Um belo dia, nalgum descuido, deixou as gaiolas abertas, quando os pássaros safaram-se da prisão. Estes, voaram na direção de brejos e matos, quando muitos viram-se apanhados por predadores. Ele, com o sucedido, “ficou adoidado”, quando apanhou um e outro bichinho ingênuo e indefeso. Precisou de meses para refazer o criatório, que nunca mais parecia o mesmo, porém redobrara cuidados.
Um indivíduo, emprestador ou gastador do dinheiro, assemelha-se ao criador, que corre atrás dos passarinhos soltos. Estes, nunca mais em sua totalidade, retornam a origem. Precisa de meses ou anos para refazer o seu patrimônio, no que vive a lamentar e relembrar o equívoco.
Gaste o dinheiro com moderação e reflexão com vistas de não precisar correr atrás da tua soma monetária. Melhor um passarinho na mão do que um punhado sobrevoando o viveiro. Quem descuida na fartura, lamenta na escassez.

Crédito da imagem: http://g1.globo.com

segunda-feira, 15 de julho de 2019

Artimanhas e Brincadeiras Coloniais

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Guido Lang

Os roubos eram fatos raros nas comunidades rurais, quando, num tom de astúcia, permitia-se roubar unicamente galinhas e melancias. O proprietário das aves, com razão de mostrar a esperteza e ousadia, era comumente convidado à ceia, quando noutro dia, unicamente notava a ausência das suas adoradas e preciosas poedeiras. Este, num primeiro instante, nem quisera acreditar nos fatos, quando “pregaram-lhe uma tremenda peça”.
A invasão da roça alheia, com a finalidade de obter algumas melancias, era uma brincadeira rotineira no meio colonial. A existência de uma abastada e bonita lavoura de frutos cedo espalhava-se aos "quatro ventos'', quando alguma turminha improvisava uma visitinha.
A invenção de histórias, aos fofoqueiros, consistia noutra artimanha, quando alguém, com vista de aplicar um bom trote ao “comentarista comunitário”, criava alguma mentira. Esta era narrada ao ouvinte, que, na primeira oportunidade, tratava de passar adiante a versão. Os fatos contados costumeiramente eram assuntos combinados com os atingidos, quando os comentários não passavam de uma “baita invenção”.
O baralho era um passatempo rotineiro nas colônias, quando, em meio ao jogo, alguém prestava-se a “fazer mutretas”. Este não sabia perder, quando tratava-se de valer-se de artifícios. Estes, como, dar-se maior número de cartas ou esconder outras, eram descobertos, quando o elemento desonesto era colocado em “banho-maria”. Ele era paulatinamente excluído das rodadas.
A existência de tesouros, nos remotos interiores, fascinou a imaginação de aventureiros e caçadores de riquezas. As conversas comunitárias costumeiramente criavam histórias e lendas, quando surgiam recantos misteriosos. Estes, nos cemitérios, grutas, igrejas, matas e moradias, eram procurados, quando forasteiros, nas caladas da noite e no transcorrer de domingos, davam-se tempo de vasculhar lugares e trabalho de cavoucar buracos. A inutilidade da procura era causa de gargalhadas e os esporádicos sinais de riqueza motivo de peripécias.

Guido Lang – Escritor, historiador e professor
Fonte: Revista Vitrini (Campo Bom/RS), número 35, outubro de 1997, página 16.

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Fragmentos da Sabedoria Colonial

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Guido Lang

Os colonos desenvolveram um amplo conhecimento e sabedoria, que liga-se aos diversos aspectos existenciais. A arte e o trabalho de edificar as residências coloniais não fugiu a regra, quando ganhou uma atenção e preocupação especial.
Estas foram preferencialmente instaladas nas encostas de algum cerro ou colina, no qual sucediam-se abundância de águas e radiação solar. Uma boa e fresca água corrente era uma necessidade básica ao consumo, no qual dependia também o sucesso das criações. A insolação era compreendida como excelente meio terapêutico, quando inibia a ação de bactérias patológicas. Os animais domésticos, com abundante exposição solar, pareciam ostentar um maior e melhor desenvolvimento e vigor, quando tem um ciclo vital muitíssimo ajustado a rotação terrestre. Os humanos integrados ao ritmo da natureza, pareciam auferir de idênticos benefícios.
Uma moradia, incrustada nalguma elevação, oferecia a vantagem de apresentar amplo porão, no qual podia-se armazenar sementes, guardar ferramentas, ostentar espaços frescos (nos dias de excessivo calor)... A ventilação, nalguma utilidade, senão maior, quando a qualidade do ar seria melhor assim como as geadas seriam menos rigorosas. Eventuais moléstias igualmente poderiam ser facilmente evacuadas com as águas das chuvas, quando também não haveria os terrenos encharcados. Os animais e humanos, no período de precipitações, poderiam circular com maior facilidade nos pátios. A visão panorâmica era outro ingrediente básico, quando poder-se-ia acompanhar e controlar a movimentação das cercanias. Um fácil e rápido acesso, a partir do caminho geral e das estradas de roça, igualmente mantinha-se noutra inquietação.
Os coloniais, dentro das condições da área, levavam em consideração o maior número de benefícios auferidos, quando constantemente, na vida, edificava-se uma exclusiva e única moradia. Um agradável e belo ambiente e cenário residencial, como na atualidade, era compreendido como bem estar social, felicidade existencial e sucesso profissional. A longevidade e tranquilidade de vida tinha seus enigmas e sabedorias, que, nas conversas informais, passavam através de gerações.

Guido Lang – Escritor, historiador e professor
Fonte: Revista Vitrini (Campo Bom/RS), número 34, setembro de 1997, página 13.

Crédito da imagem: http://g1.globo.com

O Vale da Promissão

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Guido Lang

O Vale do Rio dos Sinos (“Vale do Sapateiro”), em 25/07/1824, começou a tornar-se a “terra prometida”, para um conjunto de forasteiros europeus. Estes, em meio ao embalo das águas de um curso pluvial – com alguma semelhança com o tradicional Rio Reno, iam chegando nessas plagas. As canoas, caíques, lanchões foram sucessivamente trazendo uma massa de aventureiros, que foram abrindo picadas, derrubando matos, semeando sementes... nesta exuberante e promissora terra. Um insistente e permanente trabalho, sem trégua de sol a sol, possibilitou a produção de abundância de bens. O sucesso produtivo permitiu a introdução de um novo modelo de geração de riquezas. A agricultura minifundiária de subsistência viu-se implantada em terras sulinas, quando a labuta braçal e familiar passou a ser encarada como uma questão de dignidade e orgulho. “O Vale da Fartura” (“Vale do Sapateiro”), deitado séculos em berço esplêndido, conheceu uma revolução, quando banhados, campos e matas viram-se tomados por lavouras, pomares e potreiros. As principiantes localidades tiveram uma sociedade colonial, no qual pipocavam cemitérios, escolas e igrejas. As chaminés, de toda ordem, não tardavam a nascer nos diversos cantos e recantos, quando não faltavam atafonas, curtumes, ferrarias, moinhos, selarias, serrarias... Estes, em anos e gerações sucessivas de trabalho, lançaram os esteios para um grandioso parque industrial. Um monumento de labuta, belo e sólido, tornou-se um modelo para gerações, que perenemente processaram a continuidade na criatividade e inovação de uma gama de artigos-produtos. Cabe-nos, como herdeiros e sucessores dos pioneiros, continuar a grandiosa obra que manterá este solo continuamente abençoado.

Guido Lang – Escritor, historiador e professor
Fonte: Revista Vitrini (Campo Bom/RS), número 32, julho de 1997, página 24.

Crédito da imagem: http://expansaors.com.br

segunda-feira, 8 de julho de 2019

A confecção das calças


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Guido Lang

A costura de roupas, até os anos de 1970, era muito expressiva no meio colonial, pois era comum a confecção de tecidos. As vendas, costumeiramente, comercializavam os tecidos, que eram comprados pelos rurais e levados, na primeira oportunidade, até os profissionais de costura. Essas atuavam nas residências e uma boa moça de família tinha a obrigação de assimilar o conhecimento de costurar e remendar.
Um cidadão “pão-duro”, característica comum entre os teuto-brasileiros, resolveu aproveitar uma oferta de tecido, que era muito propícia à confecção de calças. Ele adquiriu a quantidade para a confecção de quatro peças, que foram costuradas por uma profissional de circunvizinhanças. As calças, de imediato, passaram a ser usadas nos diversos eventos comunitários, assim como nos afazeres domésticos.
Algumas moradoras, aos poucos, começaram a comentar o fato do colono usar sempre a mesmíssima calça. Pois ele comparecia, a todo lugar com a mesma vestimenta, por isso começou a cair nos comentários e gargalhadas comunitárias. Algumas quiseram saber do procedimento de lavagem da peça, que parecia jamais ser tirada do corpo. Ela certamente seria lavada à noite e, em seguida, secada no fogão; noutro dia retomava sua finalidade original.
Uma senhora, “boca grande” e mexerica nos afazeres alheios, resolveu interrogar o morador, com o intento de inteirar-se do mistério da calça. O senhor daí contou a história da confecção das calças idênticas. A curiosidade popular, desta forma, acabou desfeita e o tormento das fofoqueiras viu-se sanado.
O indivíduo não deve optar pelas mesmas cores com a finalidade de mudar o visual. A riqueza das coisas reside na diversidade e não na unanimidade dos artigos e opiniões.

(Texto extraído de “Contos do Cotidiano Colonial”, página 34, de Guido Lang).


sábado, 6 de julho de 2019

O poluído e sofrido Arroio Schmidt

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Guido Lang

O antigo Arroio de Campo Bom, na época de São Leopoldo, apresentava-se como um bonito e límpido córrego da água, que mesclava romantismo com vida. Algumas partes expressivas do curso fluvial eram cercados por matas e potreiros, quando animais e homens aproveitavam-se das suas águas com vistas de banhar-se a saciar a sede. Os poços, digo partes mais profundas do riacho, eram aproveitadas para as pescarias, quando adultos e gurizada, através da coleta, abafavam “instintos do primitivismo humano”. Os dias, quentes eram sinalizados com turmas de banhistas, que procuravam as águas e sombras com a finalidade de suavizar os rigores do verão campobonense.
O Arroio Schmidt, nos primórdios da colonização, foi cenário de histórias, quando os tropeiros dos Campos de Cima da Serra afluíam ao lugarejo de Campo Bom. Estes, nas suas paradas momentâneas de alguns dias, tratavam de deixar pastar os animais assim como saciar sua sede. As margens abrigavam ricas pastagens naturais, que eram intensivamente aproveitadas com razão do gado repôr as energias. Os condutores das manadas, com destino aos matadouros de São Leopoldo e Porto Alegre, acabavam nas suas cercanias, quando, em função dos bons pastos, alguém lembrou-se de denominar a área de campos bons. O nome, na passagem dos anos, acabou senão a denominação oficial do lugar.
A triste sina do riacho começou propriamente com a colonização, quando, ao longo dos anos, progressivamente ceifou-se a mata. A floresta original sucessivamente viu-se tolhida em função da necessidade de áreas agrícolas, no qual poder-se-ia efetuar cultivos e processar-se criações. O assoreamento do curso, com o constante acúmulo de sedimentos, foi uma contínua, quando progressivamente influiu-se na mudança e perecimento do habitat. Diversas espécies de animais e vegetais perderam o seu ambiente natural, quando instalou-se o melancólico cenário.
O advento da urbanização, com a instalação da rede de esgotos nas principais avenidas e ruas – a partir de 1970, veio a reforçar o estado de poluição, quando não se restringia exclusivamente aos problemas ligados a curtição de couros. A limpeza doméstica passou a desaguar no seu curso, quando acentuou-se o extermínio da vida. O lixo orgânico, advindo dos esgotos ou das enchentes, alteraram o processo de renovação das águas, quando mostrou-se excessivo ao volume da razão do curso líquido. Os lixos inorgânicos, sobretudo plásticos, acabaram nalguma forma no leito, quando reforçaram a aparência e contexto de “lixeira a céu aberto”.
A canalização parcial, juntamente com o Arroio Deuner (atual Arroio Leão) – na administração do prefeito Osmar Alfredo Ermel (1969/1973), veio reforçar sua nova função social, que seja de “dar um jeito nas imundícies humanas”. Esta solução seria de levar para longe a sujeira, no qual, a natureza, no Rio dos Sinos e na Lagoa do Guaíba, pudesse processar uma reciclagem dos materiais imundos. Procurou-se, como é comum no gênero humano, “varrer a sujeira debaixo do tapete”, porque, num contexto de acentuado progresso econômico, havia necessidades sociais mais proeminentes na comuna. A voga do melhoramento da infraestrutura básica era a tônica predominante, quando um pacato arroio poderia ser tranquilamente sacrificado.
A União Protetora do Ambiente Natural de Campo Bom (UPAN), em 1988, fez zum estudo do leito do Arroio Schmidt, quando apontou e constatou a exagerada poluição no córrego. As principais dificuldades relacionaram-se: “ao lixo cloacal e de produtos usados na limpeza doméstica lançada no arroio através dos esgotos”; “grande parte de lixo orgânico lançado pela comunidade” dentro do riacho; lixo depositado as suas margens; os afluente do Schmidt, como o Paulista e Quatro Colônias, também vem poluídos e acentuam a calamidade; à beira do arroio mantinha uma plataforma de lançamento de lixo e empresas lançavam resíduos químicos. Apresentou-se como paliativos, para melhorar a qualidade das águas, lançar plantas aquáticas (marrequinhas) assim como edificar pequenas barragens para originar quedas.
As administrações do Nestor Fips Schneider (1977-1982) e Elio Erivaldo Martin (1982-1983), com vistas de oferecer uma área de recreação aos moradores e talvez recompensar o curso fluvial pelas mazelas originadas pelo desenvolvimento econômico, instalaram o Parque Municipal da Integração (vulgar “Parcão”), quando produziu-se uma das maiores incoerências da urbanização. Uma ampla e bela paisagem artificial, cartão de visita da comuna, e símbolo de investimentos públicos na qualidade de vida da população, é banhada e cortada pelo fedorento, poluído e sujo curso fluvial, que choca e interroga quaisquer visitantes. Umas clássicas perguntas comumente surgem: Como um cenário tão agradável e magnífico pode ser cortado por uma sarjeta? Porque as administrações nunca tomaram providências? Quem causa tamanha agressão ambiental?
O outrora Arroio Campo Bom, a semelhança da trajetória do passado, continua sinalando história. Este, em função da localização, parece vingar-se das permanentes violações, quando retrata a triste sina dos cursos fluviais nos centros urbanos. A função de condutor de águas cedeu espaço à tarefa de escoadouro de imundícies. Segue tua saga! O Projeto Pró-Guaíba talvez seja uma oportunidade de relembrarem-se da tua almejada e sonhada despoluição.

Autor: Guido Lang
Fonte: Jornal O Fato, número 1133, dia 29/04/1997, página 02.


Crédito da imagem: https://agazetacb.com.br/noticias/e-se-o-arroio-schmidt-fosse-revitalizado

segunda-feira, 1 de julho de 2019

O livre pensador

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Guido Lang

Os livres pensadores eram uma espécie de intelectuais comuns no meio colonial. Eles eram os indivíduos mais esclarecidos e com forte influência assimilada pelo iluminismo e maçonaria. Adoravam criticar e questionar os princípios cristãos e combater as superstições.
Frederico, um forte colono teuto-brasileiro e estabelecido no interior de uma localidade, dizia-se livre pensador. Ele, do seu avô e seu pai, recebeu influência dos iluministas (Diderot, Montesquieu, Rousseau e Voltaire), que se valeram da razão com vistas a descobrir o mundo. Koseritz, a nível estadual, era a sua maior influência, pois afinava com suas ideias (de Deus estar presente na natureza). A leitura, em meio às tarefas rurais, era uma necessidade, e o Almanaque do Pensamento, Brasil Post e Neu Deutsche Zeitung eram intercambiadas entre parentes e vizinhos, que fechavam com as suas concepções ideológicas.
Os filhos semanalmente tinham a missão de levar e trazer os escritos, que circulavam em diversas residências. O debate sobre informações e temas sucedia-se nas rodadas de aperitivos ou jogos de cartas, assim como nas visitas específicas, sobretudo nos dias chuvosos, para aquela finalidade. Os retornos da venda colonial eram outro momento significativo para o diálogo e para reflexões, quando ficava-se conversando à beira da estrada (junto ao acesso de alguma propriedade rural). As concordâncias e discordâncias, num alto nível e impulsionadas pela dose alcoólica, faziam-se grandes polêmicas.
Frederico, pelo conhecimento assimilado e experiência vivenciada, tornou-se um formador da opinião pública comunitária. A colonada, diante dos “dilemas da burocracia estatal e problemas existenciais”, consultava-o com a finalidade de “ouvir saídas e sugestões frente às problemáticas”. Alguns moradores e o pastor, no entanto, conheciam suas concepções materialistas e panteístas, porque em situações, acreditava na matéria e noutras na presença de centelhas divinas no conjunto da natureza.
O camarada, no ambiente doméstico e familiar, mantinha inclinação a benzeduras e superstições. Ele em meio à incredulidade cristã, fazia o ato de benzer em “nome do Pai, Filho e Espírito Santo”. Mas, noutro exemplo, não deixava varrer após o pôr-do-sol, pois “temia varrer a sorte porta afora”. Frederico, portanto, ostentava um sincretismo, que mesclava crenças do período das “Luzes” com o das “Trevas”.
Todos nós, de alguma forma, confundimos concepções e filosofias, que mesclam conhecimentos científicos com empíricos.

(Texto extraído de “Contos do Cotidiano Colonial”, página 13, de Guido Lang).

Crédito da imagem: https://revistagalileu.globo.com

O dinheiro desvalorizado

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Guido Lang

Uma localidade interiorana foi cenário de um fato financeiro marcante, que retrata facetas do espírito econômico e poupador da descendência teuto-brasileira.
Dois solteirões, moradores do interior de uma pacata comunidade rural, viveram uma experiência essencialmente modesta. Eles, durante anos de labuta, foram acumulando divisas monetárias, pois mantinham a filosofia germânica do poupar nas farturas, com intuito de ter recursos nos infortúnios. Os rapazes conseguiram sobreviver essencialmente com o mínimo, em que, um certo conforto e bem-estar era compreendido como luxo. Os frutos do trabalho, continuamente, sobravam.
Um certo dia, um dos moços veio a perecer, quando o sobrevivente, com vista a não cair no desleixo e solidão, foi acolhido por um parente próximo. A solidariedade cristã e familiar era cultivada comumente, no meio colonial. A mudança, depois de décadas de vida, naquela casa e terra (herdada dos ancestrais), tornou-se necessária. Alguns moradores, amigos e vizinhos auxiliaram na tarefa da escassa mudança de bens, que restringiam-se a meia dúzia de pertences. Os ajudantes, depois de alguns minutos de labuta, depararam-se com dois enormes sacos, que pareciam tomados de papéis. O solteirão recomendou cuidado especial e por isso, atiçou a curiosidade do pessoal.
Os curiosos, de imediato, resolveram conferir o conteúdo dos invólucros, e ficaram admiradíssimos com as imagens. Os papéis consistiam de notas de dinheiro que, durante duas vidas inteiras, foram guardados naqueles espaços. As notas, sobretudo em cruzeiros, encontravam-se com seu valor vencido. As estimativas dão conta que, pelos valores da época, daria para comprar uma boa extensão de terra ou na atualidade, adquirir diversos veículos. Os ajudantes lamentaram profundamente o “leite derramado”.
Os poupadores, centavo por centavo, foram juntando os ganhos na sua rígida mentalidade econômica. As pessoas abstinham-se de investir na lavoura, privavam-se de melhorias alimentares, renunciavam ao conforto... Um sacrifício em vão em função do desconhecimento da escalada inflacionária brasileira. O exemplo mostra o espírito poupador germânico, gosto acentuado pelo dinheiro, temores com o porvir... Eles sobreviviam com o mínimo, com vistas a economizar o máximo.
A vida, em momentos, prega-nos peças esdrúxulas e interessantes.
           
(Texto extraído de “Contos do Cotidiano Colonial”, página 15, de Guido Lang).

Crédito da imagem: http://descubracastelo.com.br/cedulas-do-brasil/

quarta-feira, 26 de junho de 2019

O pedreiro voluntário

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Guido Lang

Um construtor, colono nos raros momentos sem serviço, ostentava um imenso apego à entidade religiosa e à fé cristã. A família e a religião pareciam ser a sua razão existencial. O trabalho comunitário, na sua concepção particular de vida, devia ser prestado gratuitamente e o auxílio à igreja “contaria pontos para absolvição divina”.
A instituição religiosa, em função do aumento populacional e do estado precário do templo, viu a necessidade de edificar um novo prédio, afinado com as novas linhas arquitetônicas e situado numa colina de majestosa visão panorâmica. Uma comissão de construção, integrada basicamente pela elite econômica, fora constituída e nomeada, e saíra a arrecadar fundos.
Seu Heinrich, afamado e exímio construtor e com pedidos de obras nas diversas colônias (picadas) para a edificação de galpões e moradias, foi destacado como mestre-de-obras e pedreiro chefe. Este, com o maior orgulho e satisfação, aceitou a sublime tarefa e ainda colocou-se à disposição para labutar gratuitamente na empreitada. Ele vislumbrou a oportunidade de deixar uma obra para gerações, assim como seu nome eu ficaria registrado na memória daquela construção e localidade, dentro dos relatos comunitários. Os netos e bisnetos ficariam orgulhosos com os feitos do antepassado, que teria inscrito seu nome nos anais da comunidade e entidade.
O trabalho, depois de contínuas campanhas de arrecadação de doações e promoções, desenvolveu-se no decorrer de dias, semanas e meses. Os moradores, de maneira geral, acompanharam acirradamente as obras e o “Seu Heinrich’’ era admirado pelo conhecimento e dedicação. Este, há um bom tempo, labutava exclusivamente na construção do monumental empreendimento, que tornou-se um protótipo para a religião.
O templo, a duras custas, fora concluído. Chegou o dia da inauguração. As autoridades eclesiásticas e membros, presentes em massa, esperavam o momento culminante. A multidão admirou-se da magnitude do prédio, que seria oficialmente inaugurado com o badalar dos sinos. Heinrich, como construtor voluntário, esperava ter a honra e o privilégio de puxar o sino. A comissão e diretoria, diante do desconhecimento das pretensões, esqueceu de oferecer-lhe a devida consideração. O pedreiro magoou-se profundamente pela desfeita. Este, como represália, nunca mais colocou os pés naquele prédio, assim como jamais voltou a labutar gratuitamente.
“O burro que mereceu o pasto pelo seu trabalho geralmente nunca come deste”.

(Texto extraído de “Contos do Cotidiano Colonial”, página 11, de Guido Lang).

Crédito da imagem: https://br.depositphotos.com

O livre pensador

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Guido Lang

Os livres pensadores eram uma espécie de intelectuais comuns no meio colonial. Eles eram os indivíduos mais esclarecidos e com forte influência assimilada pelo iluminismo e maçonaria. Adoravam criticar e questionar os princípios cristãos e combater as superstições.
Frederico, um forte colono teuto-brasileiro e estabelecido no interior de uma localidade, dizia-se livre pensador. Ele, do seu avô e seu pai, recebeu influência dos iluministas (Diderot, Montesquieu, Rousseau e Voltaire), que se valeram da razão com vistas a descobrir o mundo. Koseritz, a nível estadual, era a sua maior influência, pois afinava com suas ideias (de Deus estar presente na natureza). A leitura, em meio às tarefas rurais, era uma necessidade, e o Almanaque do Pensamento, Brasil Post e Neu Deutsche Zeitung eram intercambiadas entre parentes e vizinhos, que fechavam com as suas concepções ideológicas.
Os filhos semanalmente tinham a missão de levar e trazer os escritos, que circulavam em diversas residências. O debate sobre informações e temas sucedia-se nas rodadas de aperitivos ou jogos de cartas, assim como nas visitas específicas, sobretudo nos dias chuvosos, para aquela finalidade. Os retornos da venda colonial eram outro momento significativo para o diálogo e para reflexões, quando ficava-se conversando à beira da estrada (junto ao acesso de alguma propriedade rural). As concordâncias e discordâncias, num alto nível e impulsionadas pela dose alcoólica, faziam-se grandes polêmicas.
Frederico, pelo conhecimento assimilado e experiência vivenciada, tornou-se um formador da opinião pública comunitária. A colonada, diante dos “dilemas da burocracia estatal e problemas existenciais”, consultava-o com a finalidade de “ouvir saídas e sugestões frente às problemáticas”. Alguns moradores e o pastor, no entanto, conheciam suas concepções materialistas e panteístas, porque em situações, acreditava na matéria e noutras na presença de centelhas divinas no conjunto da natureza.
O camarada, no ambiente doméstico e familiar, mantinha inclinação a benzeduras e superstições. Ele em meio à incredulidade cristã, fazia o ato de benzer em “nome do Pai, Filho e Espírito Santo”. Mas, noutro exemplo, não deixava varrer após o pôr-do-sol, pois “temia varrer a sorte porta afora”. Frederico, portanto, ostentava um sincretismo, que mesclava crenças do período das “Luzes” com o das “Trevas”.
Todos nós, de alguma forma, confundimos concepções e filosofias, que mesclam conhecimentos científicos com empíricos.

(Texto extraído de “Contos do Cotidiano Colonial”, página 13, de Guido Lang).

Crédito da imagem: https://revistagalileu.globo.com