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segunda-feira, 15 de julho de 2019

Artimanhas e Brincadeiras Coloniais

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Guido Lang

Os roubos eram fatos raros nas comunidades rurais, quando, num tom de astúcia, permitia-se roubar unicamente galinhas e melancias. O proprietário das aves, com razão de mostrar a esperteza e ousadia, era comumente convidado à ceia, quando noutro dia, unicamente notava a ausência das suas adoradas e preciosas poedeiras. Este, num primeiro instante, nem quisera acreditar nos fatos, quando “pregaram-lhe uma tremenda peça”.
A invasão da roça alheia, com a finalidade de obter algumas melancias, era uma brincadeira rotineira no meio colonial. A existência de uma abastada e bonita lavoura de frutos cedo espalhava-se aos "quatro ventos'', quando alguma turminha improvisava uma visitinha.
A invenção de histórias, aos fofoqueiros, consistia noutra artimanha, quando alguém, com vista de aplicar um bom trote ao “comentarista comunitário”, criava alguma mentira. Esta era narrada ao ouvinte, que, na primeira oportunidade, tratava de passar adiante a versão. Os fatos contados costumeiramente eram assuntos combinados com os atingidos, quando os comentários não passavam de uma “baita invenção”.
O baralho era um passatempo rotineiro nas colônias, quando, em meio ao jogo, alguém prestava-se a “fazer mutretas”. Este não sabia perder, quando tratava-se de valer-se de artifícios. Estes, como, dar-se maior número de cartas ou esconder outras, eram descobertos, quando o elemento desonesto era colocado em “banho-maria”. Ele era paulatinamente excluído das rodadas.
A existência de tesouros, nos remotos interiores, fascinou a imaginação de aventureiros e caçadores de riquezas. As conversas comunitárias costumeiramente criavam histórias e lendas, quando surgiam recantos misteriosos. Estes, nos cemitérios, grutas, igrejas, matas e moradias, eram procurados, quando forasteiros, nas caladas da noite e no transcorrer de domingos, davam-se tempo de vasculhar lugares e trabalho de cavoucar buracos. A inutilidade da procura era causa de gargalhadas e os esporádicos sinais de riqueza motivo de peripécias.

Guido Lang – Escritor, historiador e professor
Fonte: Revista Vitrini (Campo Bom/RS), número 35, outubro de 1997, página 16.

Crédito da imagem: https://www.tripadvisor.com.br/LocationPhotoDirectLink-g2572696-d9838838-i218692697-Nucleo_de_Casas_Enxaimel-Ivoti_State_of_Rio_Grande_do_Sul.html

Fragmentos da Sabedoria Colonial

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Guido Lang

Os colonos desenvolveram um amplo conhecimento e sabedoria, que liga-se aos diversos aspectos existenciais. A arte e o trabalho de edificar as residências coloniais não fugiu a regra, quando ganhou uma atenção e preocupação especial.
Estas foram preferencialmente instaladas nas encostas de algum cerro ou colina, no qual sucediam-se abundância de águas e radiação solar. Uma boa e fresca água corrente era uma necessidade básica ao consumo, no qual dependia também o sucesso das criações. A insolação era compreendida como excelente meio terapêutico, quando inibia a ação de bactérias patológicas. Os animais domésticos, com abundante exposição solar, pareciam ostentar um maior e melhor desenvolvimento e vigor, quando tem um ciclo vital muitíssimo ajustado a rotação terrestre. Os humanos integrados ao ritmo da natureza, pareciam auferir de idênticos benefícios.
Uma moradia, incrustada nalguma elevação, oferecia a vantagem de apresentar amplo porão, no qual podia-se armazenar sementes, guardar ferramentas, ostentar espaços frescos (nos dias de excessivo calor)... A ventilação, nalguma utilidade, senão maior, quando a qualidade do ar seria melhor assim como as geadas seriam menos rigorosas. Eventuais moléstias igualmente poderiam ser facilmente evacuadas com as águas das chuvas, quando também não haveria os terrenos encharcados. Os animais e humanos, no período de precipitações, poderiam circular com maior facilidade nos pátios. A visão panorâmica era outro ingrediente básico, quando poder-se-ia acompanhar e controlar a movimentação das cercanias. Um fácil e rápido acesso, a partir do caminho geral e das estradas de roça, igualmente mantinha-se noutra inquietação.
Os coloniais, dentro das condições da área, levavam em consideração o maior número de benefícios auferidos, quando constantemente, na vida, edificava-se uma exclusiva e única moradia. Um agradável e belo ambiente e cenário residencial, como na atualidade, era compreendido como bem estar social, felicidade existencial e sucesso profissional. A longevidade e tranquilidade de vida tinha seus enigmas e sabedorias, que, nas conversas informais, passavam através de gerações.

Guido Lang – Escritor, historiador e professor
Fonte: Revista Vitrini (Campo Bom/RS), número 34, setembro de 1997, página 13.

Crédito da imagem: http://g1.globo.com

O Vale da Promissão

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Guido Lang

O Vale do Rio dos Sinos (“Vale do Sapateiro”), em 25/07/1824, começou a tornar-se a “terra prometida”, para um conjunto de forasteiros europeus. Estes, em meio ao embalo das águas de um curso pluvial – com alguma semelhança com o tradicional Rio Reno, iam chegando nessas plagas. As canoas, caíques, lanchões foram sucessivamente trazendo uma massa de aventureiros, que foram abrindo picadas, derrubando matos, semeando sementes... nesta exuberante e promissora terra. Um insistente e permanente trabalho, sem trégua de sol a sol, possibilitou a produção de abundância de bens. O sucesso produtivo permitiu a introdução de um novo modelo de geração de riquezas. A agricultura minifundiária de subsistência viu-se implantada em terras sulinas, quando a labuta braçal e familiar passou a ser encarada como uma questão de dignidade e orgulho. “O Vale da Fartura” (“Vale do Sapateiro”), deitado séculos em berço esplêndido, conheceu uma revolução, quando banhados, campos e matas viram-se tomados por lavouras, pomares e potreiros. As principiantes localidades tiveram uma sociedade colonial, no qual pipocavam cemitérios, escolas e igrejas. As chaminés, de toda ordem, não tardavam a nascer nos diversos cantos e recantos, quando não faltavam atafonas, curtumes, ferrarias, moinhos, selarias, serrarias... Estes, em anos e gerações sucessivas de trabalho, lançaram os esteios para um grandioso parque industrial. Um monumento de labuta, belo e sólido, tornou-se um modelo para gerações, que perenemente processaram a continuidade na criatividade e inovação de uma gama de artigos-produtos. Cabe-nos, como herdeiros e sucessores dos pioneiros, continuar a grandiosa obra que manterá este solo continuamente abençoado.

Guido Lang – Escritor, historiador e professor
Fonte: Revista Vitrini (Campo Bom/RS), número 32, julho de 1997, página 24.

Crédito da imagem: http://expansaors.com.br

segunda-feira, 8 de julho de 2019

A confecção das calças


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Guido Lang

A costura de roupas, até os anos de 1970, era muito expressiva no meio colonial, pois era comum a confecção de tecidos. As vendas, costumeiramente, comercializavam os tecidos, que eram comprados pelos rurais e levados, na primeira oportunidade, até os profissionais de costura. Essas atuavam nas residências e uma boa moça de família tinha a obrigação de assimilar o conhecimento de costurar e remendar.
Um cidadão “pão-duro”, característica comum entre os teuto-brasileiros, resolveu aproveitar uma oferta de tecido, que era muito propícia à confecção de calças. Ele adquiriu a quantidade para a confecção de quatro peças, que foram costuradas por uma profissional de circunvizinhanças. As calças, de imediato, passaram a ser usadas nos diversos eventos comunitários, assim como nos afazeres domésticos.
Algumas moradoras, aos poucos, começaram a comentar o fato do colono usar sempre a mesmíssima calça. Pois ele comparecia, a todo lugar com a mesma vestimenta, por isso começou a cair nos comentários e gargalhadas comunitárias. Algumas quiseram saber do procedimento de lavagem da peça, que parecia jamais ser tirada do corpo. Ela certamente seria lavada à noite e, em seguida, secada no fogão; noutro dia retomava sua finalidade original.
Uma senhora, “boca grande” e mexerica nos afazeres alheios, resolveu interrogar o morador, com o intento de inteirar-se do mistério da calça. O senhor daí contou a história da confecção das calças idênticas. A curiosidade popular, desta forma, acabou desfeita e o tormento das fofoqueiras viu-se sanado.
O indivíduo não deve optar pelas mesmas cores com a finalidade de mudar o visual. A riqueza das coisas reside na diversidade e não na unanimidade dos artigos e opiniões.

(Texto extraído de “Contos do Cotidiano Colonial”, página 34, de Guido Lang).


sábado, 6 de julho de 2019

O poluído e sofrido Arroio Schmidt

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Guido Lang

O antigo Arroio de Campo Bom, na época de São Leopoldo, apresentava-se como um bonito e límpido córrego da água, que mesclava romantismo com vida. Algumas partes expressivas do curso fluvial eram cercados por matas e potreiros, quando animais e homens aproveitavam-se das suas águas com vistas de banhar-se a saciar a sede. Os poços, digo partes mais profundas do riacho, eram aproveitadas para as pescarias, quando adultos e gurizada, através da coleta, abafavam “instintos do primitivismo humano”. Os dias, quentes eram sinalizados com turmas de banhistas, que procuravam as águas e sombras com a finalidade de suavizar os rigores do verão campobonense.
O Arroio Schmidt, nos primórdios da colonização, foi cenário de histórias, quando os tropeiros dos Campos de Cima da Serra afluíam ao lugarejo de Campo Bom. Estes, nas suas paradas momentâneas de alguns dias, tratavam de deixar pastar os animais assim como saciar sua sede. As margens abrigavam ricas pastagens naturais, que eram intensivamente aproveitadas com razão do gado repôr as energias. Os condutores das manadas, com destino aos matadouros de São Leopoldo e Porto Alegre, acabavam nas suas cercanias, quando, em função dos bons pastos, alguém lembrou-se de denominar a área de campos bons. O nome, na passagem dos anos, acabou senão a denominação oficial do lugar.
A triste sina do riacho começou propriamente com a colonização, quando, ao longo dos anos, progressivamente ceifou-se a mata. A floresta original sucessivamente viu-se tolhida em função da necessidade de áreas agrícolas, no qual poder-se-ia efetuar cultivos e processar-se criações. O assoreamento do curso, com o constante acúmulo de sedimentos, foi uma contínua, quando progressivamente influiu-se na mudança e perecimento do habitat. Diversas espécies de animais e vegetais perderam o seu ambiente natural, quando instalou-se o melancólico cenário.
O advento da urbanização, com a instalação da rede de esgotos nas principais avenidas e ruas – a partir de 1970, veio a reforçar o estado de poluição, quando não se restringia exclusivamente aos problemas ligados a curtição de couros. A limpeza doméstica passou a desaguar no seu curso, quando acentuou-se o extermínio da vida. O lixo orgânico, advindo dos esgotos ou das enchentes, alteraram o processo de renovação das águas, quando mostrou-se excessivo ao volume da razão do curso líquido. Os lixos inorgânicos, sobretudo plásticos, acabaram nalguma forma no leito, quando reforçaram a aparência e contexto de “lixeira a céu aberto”.
A canalização parcial, juntamente com o Arroio Deuner (atual Arroio Leão) – na administração do prefeito Osmar Alfredo Ermel (1969/1973), veio reforçar sua nova função social, que seja de “dar um jeito nas imundícies humanas”. Esta solução seria de levar para longe a sujeira, no qual, a natureza, no Rio dos Sinos e na Lagoa do Guaíba, pudesse processar uma reciclagem dos materiais imundos. Procurou-se, como é comum no gênero humano, “varrer a sujeira debaixo do tapete”, porque, num contexto de acentuado progresso econômico, havia necessidades sociais mais proeminentes na comuna. A voga do melhoramento da infraestrutura básica era a tônica predominante, quando um pacato arroio poderia ser tranquilamente sacrificado.
A União Protetora do Ambiente Natural de Campo Bom (UPAN), em 1988, fez zum estudo do leito do Arroio Schmidt, quando apontou e constatou a exagerada poluição no córrego. As principais dificuldades relacionaram-se: “ao lixo cloacal e de produtos usados na limpeza doméstica lançada no arroio através dos esgotos”; “grande parte de lixo orgânico lançado pela comunidade” dentro do riacho; lixo depositado as suas margens; os afluente do Schmidt, como o Paulista e Quatro Colônias, também vem poluídos e acentuam a calamidade; à beira do arroio mantinha uma plataforma de lançamento de lixo e empresas lançavam resíduos químicos. Apresentou-se como paliativos, para melhorar a qualidade das águas, lançar plantas aquáticas (marrequinhas) assim como edificar pequenas barragens para originar quedas.
As administrações do Nestor Fips Schneider (1977-1982) e Elio Erivaldo Martin (1982-1983), com vistas de oferecer uma área de recreação aos moradores e talvez recompensar o curso fluvial pelas mazelas originadas pelo desenvolvimento econômico, instalaram o Parque Municipal da Integração (vulgar “Parcão”), quando produziu-se uma das maiores incoerências da urbanização. Uma ampla e bela paisagem artificial, cartão de visita da comuna, e símbolo de investimentos públicos na qualidade de vida da população, é banhada e cortada pelo fedorento, poluído e sujo curso fluvial, que choca e interroga quaisquer visitantes. Umas clássicas perguntas comumente surgem: Como um cenário tão agradável e magnífico pode ser cortado por uma sarjeta? Porque as administrações nunca tomaram providências? Quem causa tamanha agressão ambiental?
O outrora Arroio Campo Bom, a semelhança da trajetória do passado, continua sinalando história. Este, em função da localização, parece vingar-se das permanentes violações, quando retrata a triste sina dos cursos fluviais nos centros urbanos. A função de condutor de águas cedeu espaço à tarefa de escoadouro de imundícies. Segue tua saga! O Projeto Pró-Guaíba talvez seja uma oportunidade de relembrarem-se da tua almejada e sonhada despoluição.

Autor: Guido Lang
Fonte: Jornal O Fato, número 1133, dia 29/04/1997, página 02.


Crédito da imagem: https://agazetacb.com.br/noticias/e-se-o-arroio-schmidt-fosse-revitalizado

segunda-feira, 1 de julho de 2019

O livre pensador

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Guido Lang

Os livres pensadores eram uma espécie de intelectuais comuns no meio colonial. Eles eram os indivíduos mais esclarecidos e com forte influência assimilada pelo iluminismo e maçonaria. Adoravam criticar e questionar os princípios cristãos e combater as superstições.
Frederico, um forte colono teuto-brasileiro e estabelecido no interior de uma localidade, dizia-se livre pensador. Ele, do seu avô e seu pai, recebeu influência dos iluministas (Diderot, Montesquieu, Rousseau e Voltaire), que se valeram da razão com vistas a descobrir o mundo. Koseritz, a nível estadual, era a sua maior influência, pois afinava com suas ideias (de Deus estar presente na natureza). A leitura, em meio às tarefas rurais, era uma necessidade, e o Almanaque do Pensamento, Brasil Post e Neu Deutsche Zeitung eram intercambiadas entre parentes e vizinhos, que fechavam com as suas concepções ideológicas.
Os filhos semanalmente tinham a missão de levar e trazer os escritos, que circulavam em diversas residências. O debate sobre informações e temas sucedia-se nas rodadas de aperitivos ou jogos de cartas, assim como nas visitas específicas, sobretudo nos dias chuvosos, para aquela finalidade. Os retornos da venda colonial eram outro momento significativo para o diálogo e para reflexões, quando ficava-se conversando à beira da estrada (junto ao acesso de alguma propriedade rural). As concordâncias e discordâncias, num alto nível e impulsionadas pela dose alcoólica, faziam-se grandes polêmicas.
Frederico, pelo conhecimento assimilado e experiência vivenciada, tornou-se um formador da opinião pública comunitária. A colonada, diante dos “dilemas da burocracia estatal e problemas existenciais”, consultava-o com a finalidade de “ouvir saídas e sugestões frente às problemáticas”. Alguns moradores e o pastor, no entanto, conheciam suas concepções materialistas e panteístas, porque em situações, acreditava na matéria e noutras na presença de centelhas divinas no conjunto da natureza.
O camarada, no ambiente doméstico e familiar, mantinha inclinação a benzeduras e superstições. Ele em meio à incredulidade cristã, fazia o ato de benzer em “nome do Pai, Filho e Espírito Santo”. Mas, noutro exemplo, não deixava varrer após o pôr-do-sol, pois “temia varrer a sorte porta afora”. Frederico, portanto, ostentava um sincretismo, que mesclava crenças do período das “Luzes” com o das “Trevas”.
Todos nós, de alguma forma, confundimos concepções e filosofias, que mesclam conhecimentos científicos com empíricos.

(Texto extraído de “Contos do Cotidiano Colonial”, página 13, de Guido Lang).

Crédito da imagem: https://revistagalileu.globo.com

O dinheiro desvalorizado

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Guido Lang

Uma localidade interiorana foi cenário de um fato financeiro marcante, que retrata facetas do espírito econômico e poupador da descendência teuto-brasileira.
Dois solteirões, moradores do interior de uma pacata comunidade rural, viveram uma experiência essencialmente modesta. Eles, durante anos de labuta, foram acumulando divisas monetárias, pois mantinham a filosofia germânica do poupar nas farturas, com intuito de ter recursos nos infortúnios. Os rapazes conseguiram sobreviver essencialmente com o mínimo, em que, um certo conforto e bem-estar era compreendido como luxo. Os frutos do trabalho, continuamente, sobravam.
Um certo dia, um dos moços veio a perecer, quando o sobrevivente, com vista a não cair no desleixo e solidão, foi acolhido por um parente próximo. A solidariedade cristã e familiar era cultivada comumente, no meio colonial. A mudança, depois de décadas de vida, naquela casa e terra (herdada dos ancestrais), tornou-se necessária. Alguns moradores, amigos e vizinhos auxiliaram na tarefa da escassa mudança de bens, que restringiam-se a meia dúzia de pertences. Os ajudantes, depois de alguns minutos de labuta, depararam-se com dois enormes sacos, que pareciam tomados de papéis. O solteirão recomendou cuidado especial e por isso, atiçou a curiosidade do pessoal.
Os curiosos, de imediato, resolveram conferir o conteúdo dos invólucros, e ficaram admiradíssimos com as imagens. Os papéis consistiam de notas de dinheiro que, durante duas vidas inteiras, foram guardados naqueles espaços. As notas, sobretudo em cruzeiros, encontravam-se com seu valor vencido. As estimativas dão conta que, pelos valores da época, daria para comprar uma boa extensão de terra ou na atualidade, adquirir diversos veículos. Os ajudantes lamentaram profundamente o “leite derramado”.
Os poupadores, centavo por centavo, foram juntando os ganhos na sua rígida mentalidade econômica. As pessoas abstinham-se de investir na lavoura, privavam-se de melhorias alimentares, renunciavam ao conforto... Um sacrifício em vão em função do desconhecimento da escalada inflacionária brasileira. O exemplo mostra o espírito poupador germânico, gosto acentuado pelo dinheiro, temores com o porvir... Eles sobreviviam com o mínimo, com vistas a economizar o máximo.
A vida, em momentos, prega-nos peças esdrúxulas e interessantes.
           
(Texto extraído de “Contos do Cotidiano Colonial”, página 15, de Guido Lang).

Crédito da imagem: http://descubracastelo.com.br/cedulas-do-brasil/

quarta-feira, 26 de junho de 2019

O pedreiro voluntário

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Guido Lang

Um construtor, colono nos raros momentos sem serviço, ostentava um imenso apego à entidade religiosa e à fé cristã. A família e a religião pareciam ser a sua razão existencial. O trabalho comunitário, na sua concepção particular de vida, devia ser prestado gratuitamente e o auxílio à igreja “contaria pontos para absolvição divina”.
A instituição religiosa, em função do aumento populacional e do estado precário do templo, viu a necessidade de edificar um novo prédio, afinado com as novas linhas arquitetônicas e situado numa colina de majestosa visão panorâmica. Uma comissão de construção, integrada basicamente pela elite econômica, fora constituída e nomeada, e saíra a arrecadar fundos.
Seu Heinrich, afamado e exímio construtor e com pedidos de obras nas diversas colônias (picadas) para a edificação de galpões e moradias, foi destacado como mestre-de-obras e pedreiro chefe. Este, com o maior orgulho e satisfação, aceitou a sublime tarefa e ainda colocou-se à disposição para labutar gratuitamente na empreitada. Ele vislumbrou a oportunidade de deixar uma obra para gerações, assim como seu nome eu ficaria registrado na memória daquela construção e localidade, dentro dos relatos comunitários. Os netos e bisnetos ficariam orgulhosos com os feitos do antepassado, que teria inscrito seu nome nos anais da comunidade e entidade.
O trabalho, depois de contínuas campanhas de arrecadação de doações e promoções, desenvolveu-se no decorrer de dias, semanas e meses. Os moradores, de maneira geral, acompanharam acirradamente as obras e o “Seu Heinrich’’ era admirado pelo conhecimento e dedicação. Este, há um bom tempo, labutava exclusivamente na construção do monumental empreendimento, que tornou-se um protótipo para a religião.
O templo, a duras custas, fora concluído. Chegou o dia da inauguração. As autoridades eclesiásticas e membros, presentes em massa, esperavam o momento culminante. A multidão admirou-se da magnitude do prédio, que seria oficialmente inaugurado com o badalar dos sinos. Heinrich, como construtor voluntário, esperava ter a honra e o privilégio de puxar o sino. A comissão e diretoria, diante do desconhecimento das pretensões, esqueceu de oferecer-lhe a devida consideração. O pedreiro magoou-se profundamente pela desfeita. Este, como represália, nunca mais colocou os pés naquele prédio, assim como jamais voltou a labutar gratuitamente.
“O burro que mereceu o pasto pelo seu trabalho geralmente nunca come deste”.

(Texto extraído de “Contos do Cotidiano Colonial”, página 11, de Guido Lang).

Crédito da imagem: https://br.depositphotos.com

O livre pensador

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Guido Lang

Os livres pensadores eram uma espécie de intelectuais comuns no meio colonial. Eles eram os indivíduos mais esclarecidos e com forte influência assimilada pelo iluminismo e maçonaria. Adoravam criticar e questionar os princípios cristãos e combater as superstições.
Frederico, um forte colono teuto-brasileiro e estabelecido no interior de uma localidade, dizia-se livre pensador. Ele, do seu avô e seu pai, recebeu influência dos iluministas (Diderot, Montesquieu, Rousseau e Voltaire), que se valeram da razão com vistas a descobrir o mundo. Koseritz, a nível estadual, era a sua maior influência, pois afinava com suas ideias (de Deus estar presente na natureza). A leitura, em meio às tarefas rurais, era uma necessidade, e o Almanaque do Pensamento, Brasil Post e Neu Deutsche Zeitung eram intercambiadas entre parentes e vizinhos, que fechavam com as suas concepções ideológicas.
Os filhos semanalmente tinham a missão de levar e trazer os escritos, que circulavam em diversas residências. O debate sobre informações e temas sucedia-se nas rodadas de aperitivos ou jogos de cartas, assim como nas visitas específicas, sobretudo nos dias chuvosos, para aquela finalidade. Os retornos da venda colonial eram outro momento significativo para o diálogo e para reflexões, quando ficava-se conversando à beira da estrada (junto ao acesso de alguma propriedade rural). As concordâncias e discordâncias, num alto nível e impulsionadas pela dose alcoólica, faziam-se grandes polêmicas.
Frederico, pelo conhecimento assimilado e experiência vivenciada, tornou-se um formador da opinião pública comunitária. A colonada, diante dos “dilemas da burocracia estatal e problemas existenciais”, consultava-o com a finalidade de “ouvir saídas e sugestões frente às problemáticas”. Alguns moradores e o pastor, no entanto, conheciam suas concepções materialistas e panteístas, porque em situações, acreditava na matéria e noutras na presença de centelhas divinas no conjunto da natureza.
O camarada, no ambiente doméstico e familiar, mantinha inclinação a benzeduras e superstições. Ele em meio à incredulidade cristã, fazia o ato de benzer em “nome do Pai, Filho e Espírito Santo”. Mas, noutro exemplo, não deixava varrer após o pôr-do-sol, pois “temia varrer a sorte porta afora”. Frederico, portanto, ostentava um sincretismo, que mesclava crenças do período das “Luzes” com o das “Trevas”.
Todos nós, de alguma forma, confundimos concepções e filosofias, que mesclam conhecimentos científicos com empíricos.

(Texto extraído de “Contos do Cotidiano Colonial”, página 13, de Guido Lang).

Crédito da imagem: https://revistagalileu.globo.com

quinta-feira, 20 de junho de 2019

O construtor de crateras

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Guido Lang

As histórias de tesouros enterrados deixaram muita gente com “a cabeça virada” fazendo com que passassem noites sem dormir em função dos pensamentos direcionados ao enriquecimento fácil.
Este fato aconteceu num remoto interior onde um transtornado mental cavoucou imensas crateras. Os buracos, depois de décadas de existência, são a efetiva comprovação do sucedido. Enormes pedras, retiradas com um esforço sobre-humano, espalham-se pelas lavouras e são outra comprovação da labuta inútil, que absorveu dias, semanas, meses de trabalho de um pacato morador.
Um colonial “encheu a cabeça” de um humilde senhor, que vivia falando sobre tesouros e sonhando com eles. Este era obcecado pelo assunto e suas conversas prediletas relacionavam-se aos achados. Inúmeros relatos eram mais fantasias e ilusões, porque achados fáceis sucedem-se unicamente com muita casualidade e sorte. Pouquíssimas pessoas, num contexto de milhões, parecem ter o privilégio de desfrutar de descobertas de artefatos ou metais com valores monetários significativos, pois quase ninguém costuma enterrar riquezas.
O modesto cidadão rural, depois de falar muito sobre o tema dos objetos preciosos, ouviu uma versão da existência de metais preciosos na sua pacata localidade. Este, de imediato, iniciou as escavações sem delimitar a área e abria crateras sem maiores critérios. Um buraco ali, outra cratera lá, iam tomando forma. O indivíduo procedeu dessa forma por um bom tempo, pois tinha certeza absoluta do sucesso. O cansaço e as necessidades de sobrevivência diária venceram-no, mas não foi fácil fazê-lo desistir da ideia da procura inútil. Os moradores coloniais deram-no como louco, mas poucos batalhavam tenazmente para concretizar suas aspirações e sonhos absurdos.
Cada louco alimenta as suas fantasias e manias.

(Texto extraído de “Contos do Cotidiano Colonial”, página 87, de Guido Lang).

Crédito da imagem: http://g1.globo.com

domingo, 16 de junho de 2019

A figueira centenária

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Guido Lang

As colônias alemãs, sobretudo do Vale do Taquari, foram abaladas pela Revolução Federalista (1893-1895). Os maragatos e pica-paus continuamente incursionavam pelas picadas, e ambos adonavam-se de víveres e roubavam casas comerciais.
Os colonos, em diversas oportunidades, viram suas criações e plantações pilhadas. As tropas, sem mantimentos, abasteciam-se nas pacatas propriedades rurais, que cediam aves, bovinos e suínos, assim como montarias. Os moradores, com vistas a não sofrer maiores represálias, cediam os bens. Os dividendos monetários acumulados com muita economia e trabalho também necessitaram de esconderijos seguros, pois atiçavam a cobiça humana.
Um morador colonial, perseguido pelos maragatos (por ser simpatizante dos castilhistas), precisou esconder-se no interior dos matos da sua propriedade, pois recebia, constantemente, visitas de inimigos. Estes, a todo momento, procuravam-no com o intuito de degolá-lo, era tido como informante de republicanos. Necessitou também esconder seu numerário financeiro, que consistia de alguns quilos de moedas de ouro e prata (do período imperial). Ele, como refugiado, resolveu armazená-lo no interior de um orifício oco do tronco da tradicional figueira centenária. O colono, com convicção, confiou na segurança daquela guarda, pois o período revolucionário certamente seria breve.
A instabilidade política e a perseguição estenderam-se por meses. O cidadão, num belo dia, veio a adoecer e a morte súbita ceifou-lhe a existência. O dinheiro, durante décadas, ficou guardado no interior da exuberante figueira, que mantinha-se como símbolo de perenidade. As gerações de familiares, vinham e iam, e nada de desfazer o mistério das moedas. Ele, inclusive, tinha dado origem a histórias familiares, que eram narradas de pais para filhos. Os forasteiros e moradores, em diversas ocasiões, chegavam a abrigar-se nas sombras da formosa árvore que não parecia ostentar maiores segredos.
Um agricultor, com vistas a fazer espaçosa roça, resolveu derrubar a árvore, que, com advento da mecanização agrícola, representava um estorvo. A motosserra, em poucos minutos, foi ceifando e retalhando a planta, quando, numa certa altura, escutou-se um estranho ruído. O barulho denunciou a presença de metais, e vieram à tona as extraviadas moedas. Uma alegria tomou conta do pacato trabalhador rural que, casualmente, deparou-se com a fortuna.
A vida, em escassas oportunidades, defronta-nos com dádivas e surpresas.

(Texto extraído de “Contos do Cotidiano Colonial”, página 16, de Guido Lang).

Crédito da imagem: https://pixabay.com/pt/photos/bitcoin-moedas-ouro-dinheiro-moeda-282798/

A fuga do combatente maragato


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Guido Lang

A Colônia Teutônia (atual Teutônia/RS), em 15 de maio de 1894, conheceu seu maior combate, quando tropas federalistas (conhecidas como maragatos) e republicanas (conhecidas como pica-paus), degladiaram-se na Revolução Federalista (1893-1895).
Centenas de homens enfrentaram-se sobre a ponte do Arroio Boa Vista (entre Glück-Auf e Neuhaus – atual Languiru e Teutônia Várzea), onde os revolucionários federalistas entrincheiravam-se na residência de Júlio May (quartel-general) e moradias circunvizinhas.
Os maragatos, conhecendo o tamanho da tropa governamental, passaram a fugir, sem disparar o primeiro tiro, em direção aos matos. Os tiros dos pica-paus assumiram a semelhança duma chuva em direção aos fugitivos, que foram abonando arreios, bagagens, cavalos e munições aos inimigos. Quatorze combatentes, em meio ao combate de Teutônia, tombaram mortos. Dois eram governamentais e doze, maragatos.
Os federalistas, curando as feridas e desorganizados nos matos, passaram a ser caçados como animais, com razão de abandonarem o quartel-general teutoniense.
Estes, depois de meses de acampamento e inúmeros atos de pilhagem, assim como do incêndio de diversas casas comerciais, precisaram procurar novas bases.
Diversos combatentes, depois de dias de esconderijo, necessitaram “colocar o pé na estrada” com a finalidade de reaglutinar-se e reencontrar-se com seus simpatizantes.
A tradição oral conta-nos a história dum federalista que bateu esfomeado numa residência colonial.
Soldados republicanos ainda estavam no seu encalço, pois almejavam abatê-lo ou eventualmente prendê-lo.
Este, em meio ao maior pavor e estado deplorável, chegando na moradia, solicitou água e pão. A família atendeu prontamente ao pedido do inimigo, quando o revolucionário retomou fuga. Os perseguidores, minutos depois, chegaram e pediram informações. Relatou-se sobre sua passagem, mas ignorou-se sua direção e o solicitado por ele.
O maragato era um ser humano, por isso não merecia ser caçado como animal.
O colonial não nega um pedido de água e alguma comida a forasteiros, que, costumeiramente, são recebidos amistosamente.

(Texto extraído de “Contos do Cotidiano Colonial”, página 87, de Guido Lang).

Crédito da imagem: https://www.extraclasse.org.br/cultura/2013/04/chimangos-x-maragatos/

quarta-feira, 12 de junho de 2019

O enigma da Lenda do Rio dos Sinos

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Guido Lang

A vida costuma inspirar-se na natureza, quando águas, animais e plantas descortinam belos cenários geográficos aos olhos humanos. O Rio dos Sinos, berço de muitas histórias e lendas, continua fascinando os moradores circunvizinhos, quando, apesar das massivas agressões ambientais, ostenta-se como excepcional paisagem natural. Inúmeros enamorados e poetas contagiam-se com sua formosura e maravilha, quando, em meio a agitação e correria urbana, dão-se um instante de percorrer suas cercanias. Estes, em momentos, refugiam-se nos últimos resquícios dos santuários ecológicos, que, no nosso contexto, sobrevivem no curso pluvial e encostas do planalto. As histórias e lendas, frutos da imaginação e sonho, criam-se ao longo das vivências, quando somam-se ao conjunto das crendices e superstições populares.
Uma recente versão adveio de um jovem casal enamorado, que, como amantes da natureza, resolveram conhecer e refugiar-se na harmonia e na tranquilidade das águas e vegetações dos Sinos. Estes serviram-se de um pacato caíque, que esparsamente ainda corta as singelas águas. Os apaixonados tomaram a embarcação no Porto Blos/outrora Passo de Campo Bom, quando tomaram o rumo do curso superior do rio. Estes, depois de depararem inúmeras agressões, puderam também conhecer facetas da diversidade biológica. Várias espécies de aves sobrevivem corajosamente “aos avanços do progresso”, quando lutam desesperadamente diante dos progressivos aterros, dragagens, dejetos, habitações... Outros exemplares da vida silvestre, distante dos olhos, deve haver nos refúgios, quando ousa subsistir a cobiça e incursões humanas.
 Os visitantes, em meio às clareiras dos banhados e matos, puderam apreciar, a centena de quilômetros quadrados de áreas inundáveis, a situação existencial das margens. Diversos lugares chegam a confundir os desavisados forasteiros, quando estranhas crateras misturaram-se ao ambiente de campos, clareiras, maricás... Os buracos são os grandes barreiros, que foram escavados pela centenária atividade oleira. O extrativismo mineral, em vários exemplos, criou a fisionomia de açudes, no qual proliferam marrecos, mosquitos, muçuns, nutrias, sapos, traíras... Esporádicas iniciativas agrícolas sucedem-se ao longo do curso, quando basicamente relacionam-se ao pastoreio. As plantações são uma raridade, pois o barro preto e visguento praticamente ostenta-se infértil. Os raios solares, nos verões quentes, deixam-no duro como pedra, quando o solo fica rendilhado em mil canais. Os pioneiros, nos primórdios da colonização, já frustraram-se com safras, quando partiram à atividade oleira e criação de gado.
Os jovens aventureiros, próximo ao outrora Passo da Cruz (divisas de Campo Bom, Novo Hamburgo e Sapiranga), tiveram a sensação de terem escutado estranhos ruídos, que, conhecedores da "Lenda dos Sinos", pareceu-lhes de algum artefato metálico. Estes, de imediato, ligaram os fatos do ruído aos desaparecidos sinos, que, há séculos, estariam fundiados nas profundezas do rio. A sonoridade aguda, escutada por navegantes e pescadores nas caladas das noites chuvosas e escuras assim como claras e de lua cheia, tomou-lhes os ouvidos. Os estranhos barulhos e ruídos, de imediato, foram interpretados como um aviso dos espíritos, que aguçaram seus instintos com vistas de estabelecer uma aliança e união duradoura. As suas relações acabariam seladas num matrimônio, que resistiria às agruras da monotonia e problemas do cotidiano.
O fato vivenciado criou nova versão aos enamorados, que, tendo o privilégio de ouvir o ruído dos sinos fundiados, terão a certeza da indissolubilidade do matrimônio e um relacionamento inquebrável. Uma bela e majestosa união familiar tomaria vulto para aqueles privilegiados, que tem a alegria e o privilégio de escutar os discretos e singelos ruídos. Uma leva de encantados, em função do conhecimento da mais nova lenda, toma o caminho do rio, quando almeja beneficiar-se da bênção e dádiva dos sinos. Narra a lenda que a fé é imprescindível na versão, caso contrário o som metálico seria inaudível aos ouvidos humanos.
Amigos enamorados! Alimentem o segredo e o sonho da "Lenda do Rio dos Sinos", quando por ventura serão beneficiados e presenteados com a sólida união.

Autor: Guido Lang
Fonte: Jornal O Fato, número 1182, dia 21/10/1997, página 06.

Crédito da imagem: https://medium.com/ouro-preto/6-coisas-que-voc%C3%AA-s%C3%B3-ir%C3%A1-fazer-em-ouro-preto-575f285eba41

O prédio da Estação Ferroviária de Campo Bom


Guido Lang

A cidade de Campo Bom mantém uma esdrúxula construção, que salta aos olhos dos forasteiros. Estes, nas suas passagens de carro ou linhas de ônibus, costumam interrogar sobre a razão daquela edificação. Esta trata-se do atual prédio da Biblioteca Pública Municipal Dr. Liberato, que ostenta, junto as construções da Antiga Igreja Evangélica e a Sociedade 15 de Novembro, uma riquíssima trajetória. Os antigos unicamente ainda memorizam fatos notáveis, que, desde 1935, foram sucedendo-se na notável obra.
A Antiga Estação Ferroviária de Campo Bom, a partir de 1934, tomou corpo, quando mobilizou a elite econômica e monetária da então pacata vila distrital. O lugarejo, num acelerado processo de industrialização, necessitava de uma nova estação ferroviária, na qual haveria espaço para a circulação de mercadorias e pessoas. A casinha do trem existente era muitíssimo pequeno para atender as novas necessidades, quando moradores e produtos, em meio à espera dos comboios ferroviários, poderiam ficar expostos a ação das intempéries do tempo. Os empresários, liderados por Alfredo Blos, Arno Kunz e Emílio Vetter, tomaram a dianteira com a razão de edificar um novo prédio.
Os órgãos públicos, como de práxis, mantiveram carências de verbas, que pudesse custear as despesas do empreendimento. Os empresários, sobretudo o industrialista Emílio Vetter, abraçaram partes da obra comunitária, quando doaram terreno e tijolos. Pode-se dessa forma, edificar um prédio inovador que contrastava no contexto das fábricas e residências da vila camponense. Ele também foi o primeiro prédio comunitário, que ostentava dois pisos e, à distância, mantinha uma magnitude e opulência. A construção, no contexto da ferrovia, foi considerado um protótipo, que inspirou outras semelhantes edificações. As vantagens decorriam do conforto oferecido assim como a existência de uma moradia “ao ecônomo ferroviário”, obediência aos requisitos de higiene e a presença de um poço artesiano.
A inauguração transcorreu no dia 11 de abril de 1935, quando autoridades e moradores afluíam ao grandioso acontecimento. A vila parou em função da festa, quando não faltavam discursos, música e confraternizações. O cidadão Emílio Vetter, para marcar a conquista comunitária, mandou abater três cabeças de gado, quando comeram um churrasco, de forma gratuita, todos os moradores do distrito. Estes, na sua totalidade, foram beneficiados com a concretização da velha aspiração da comunidade, que, a muito, tinha sido reivindicada pelos moradores.  Um cartão de visitas, portanto, criou-se no lugarejo, que, nos finais de semana, reunia inúmeros campobonenses. Estes afluíram à Estação Ferroviária com a finalidade de inteirar-se do movimento de passageiros, quando não havia maiores opções de lazer.
A desativação da Linha Férrea, em 1963, veio sepultar um capítulo épico, gerando nova função econômica e social ao prédio. Este, depois de algumas adaptações, tornou-se a sede da Prefeitura Municipal de Campo Bom/RS. O afluxo de contribuintes veio trazer-lhe uma gama de indivíduos, que vinham satisfazer exigências burocráticas. As tradicionais sacadas, no lado sul e norte, foram transformadas em salas, quando ampliou-se as reais funções de uso. Alguns prefeitos, como Evaldo Dreger, Osmar Alfredo Ermel, Werner Ricardo Bohrer, Nestor Fips Schneider, Élio Erivaldo Martin e Karl Heinz Kopittke, dirigiram os destinos municipais a partir do local. O espaço, a partir do aumento dos serviços públicos em função da acelerada urbanização, tornou-se pequeno, quando, em 1988, mudou-se o local da administração municipal.
A construção, nesta época, ganhou algumas adaptações e esparsas melhorias, quando tornou-se o espaço da Biblioteca Pública Municipal “Dr. Liberato”. O acervo literário municipal pode ser abrigado no seu meio, quando manteve sua vocação comunitária. Um afluxo contínuo, de apaixonados leitores, afluem no seu interior, quando procuram aprofundar pesquisas, inteirar-se do “cotidiano jornalístico”, solicitar empréstimos literários... Um punhado de alunos e professores visita as dependências, quando participam dos diversos projetos culturais oferecidos pela biblioteca. Umas exclamações ou perguntas comuns e tradicionais costumam desabrochar na boca da criançada: “Que estranha construção! Olha o prédio diferente! Veja edificação esquisita!”
Os funcionários, depois de anos de labuta no espaço, depararam-se com sensações estranhas, quando, em momentos, desfilam no seu interior. Eles parecem ouvir barulhos esquisitos, que advém de algumas salas. Eles descrevem acontecimentos sucedidos com indivíduos, que a muito descansam no repouso eterno. Estes, talvez espíritos de finados, parecem adorar a histórica construção, que, a cada quarto de século, ganha novas atribuições comunitárias. Alguns trabalhadores, em função dos fatos e ruídos, interrogam-se das razões daqueles enigmas e mistérios, que apavoram supersticiosos e desafiam a lógica da compreensão humana. Alguns sugeriram a bênção religiosa, enquanto outros a realização de orações (em favor da paz e sossego dessas almas). Os descrentes materialistas parecem indiferentes aos sucedidos, quando carecem importunar-se com imaginações.
O histórico e tradicional prédio, com presença marcante na realidade comunitária, mantém-se uma presença marcante, quando impõem-se pelo estranho estilo arquitetônico e salienta-se pelas múltiplas funções utilitárias.
Antiga Estação Ferroviária de Campo Bom, portanto, mantém-se significativa, quando apesar do estado de preservação, escreves uma rica trajetória e marcastes a vida de uma infinidade de moradores. Segue a tua gloriosa sina, quando “ostentas atendimentos públicos e preservas histórias dos mistérios da criação”.

Autor: Guido Lang.
Fonte: Jornal O Fato, número 1161, dia 08/08/1997, página 06.

Crédito da imagem: https://www.guiacampobom.com.br/campo-bom/pontos-turisticos/antiga-estacao-da-linha-ferroviaria

terça-feira, 11 de junho de 2019

O pelego do degolador maragato

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Guido Lang

Uma propriedade colonial, em 1893, conheceu uma invasão repentina dos maragatos. Os federalistas, de “sopetão”, entraram nas instalações rurais, e proprietários e familiares nem tiveram tempo de fugir para os matos próximos.
O colono, para safar-se de maiores represálias, atendeu bem aos forasteiros indesejáveis, pois tinha ouvido falar dos recentes horrores da guerra fraticida entre o povo rio-grandense, pois irmãos gaúchos degolavam-se por divergências políticas.
O morador, vivendo bastante isolado, conhecia pouco das diferenças ideológicas entre federalistas e republicanos, que ensanguentavam barbaramente o solo do Rio Grande do Sul. O cidadão, na prática, almejava viver em paz e labutar na terra para dela extrair o sustento. Os seus pais, há décadas atrás, tinham abandonado a Europa com a finalidade de safar-se das intermináveis guerras europeias.
O chefe maragato, Altenhofen, falou da necessidade de cavalos e mantimentos diante da precisão da guerra, porque a tropa de combatentes via-se carente de provisões e recursos. O colonial, com o objetivo de poupar aborrecimentos e a vida, cedeu gado, equinos e suínos, que acabaram abatidos no lugar, e os animais de montaria que foram levados. Um revolucionário viu ainda estendido um excepcional pelego, que muito lhe agradou. O colono, diante do temor das armas, deu-o como cortesia, pois não queria maiores implicações com os rebeldes.
Alguns meses depois um filho do morador dirigiu-se da Schmidt para a Picada Catarina. Este, com sua montaria, viu-se parado, próximo ao Passo da Capivara, por uma turminha de maragatos. Os revolucionários, por alguma razão, quiseram degolá-lo.
O carrasco, com a determinação recebida do superior, encontrava-se pronto para concretizar o ato. A vítima, em meio ao maior desespero e na última tentativa de safar-se com vida, falou: “Estás vendo este pelego no seu cavalo? Meu pai deu-lhe como presente e agora, como gratidão, almeja matar seu rebento?” O algoz sensibilizou-se diante da afirmativa e respondeu: “Toma o teu potro e some daqui. Não saía de casa durante a Revolução Federalista”. O modesto pelego salvou-lhe a vida e o cidadão refugiou-se no interior duma propriedade.
Pequenas cortesias aproximam as pessoas e resultam, costumeiramente, em troca de favores.

(Texto extraído de “Contos do Cotidiano Colonial”, página 68, de Guido Lang).

Crédito da imagem: https://educalingo.com/pt/dic-es/maragato

quarta-feira, 5 de junho de 2019

O cavalo corredor

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Guido Lang

            O lazer colonial, até os anos de 1960, era bastante escasso no contexto das colônias, onde carecia-se das facilidades de comunicação e locomoção para os diversos eventos comunitários.
Os colonos, de maneira geral, divertiam-se nos bailes anuais das entidades, nas carreiras de cavalos, nos festejos familiares, kerb, partidas de futebol..
Um esporte bastante apreciado eram as tradicionais carreiras de animais, que se sucediam nos potreiros das colônias..
A multidão, nos eventos previamente divulgados, afluía maciçamente às competições, nas quais faziam-se vultuosas apostas nos animais. Um barulho (carteado), sobre um pelego estendido no chão, ganhava importância, nos intervalos da diversão, pois nem sempre havia cadeiras e mesas para as partidas improvisadas.
Os moradores submetiam-se à realidade de carências, porque desconheciam maiores confortos e vantagens naquele pacato e rústico modelo de vida.
Um apostador e o dono de um cavalo corredor fizeram um negócio para alimentar e investir no aprimoramento do excepcional bicho. O dono entraria com a mão de obra, com a finalidade de tratar o animal e com os rotineiros treinos de corrida. O fanático apostador entraria com o trato (alimento) no qual não poderia faltar a abundância de milho.
O colaborador caprichou no investimento, pois sentia paixão pela corrida de cavalos, e apostava suas economias no corredor de sua preferência.
O dono, numa falcatrua, desviava o cereal para o trato suíno, enquanto o colaborador nem desconfiava do roubo. O cavalo, numa aparente combinação, ganhava somente as corridas de menor número de apostas e perdia aquelas de maiores quantias.
O colaborador perdeu muito dinheiro com a história e praticamente faliu no seu negócio particular até descobrir a veracidade do engano e roubo.
A malandragem sempre existiu nas mais diversas e modestas organizações sociais, pois enganar e roubar parece fazer parte do gênero humano.

(Texto extraído de “Contos do Cotidiano Colonial”, página 84, de Guido Lang).

Crédito da imagem: https://www.clasf.com.br