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segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

O tratado



Dois indivíduos, desde a tenra infância, estabeleceram uma fraterna convivência. Inúmeras aventuras e afrontas, como experiência de vida, tomaram vulto no ínterim. Histórias de caçadas e pescarias, brincadeiras e jogos, estudos e parcerias de aulas, esportes e bailes nas colônias... Achegou-se, com a idade, a necessidade de fazer certas escolhas: decidir-se por alguma companhia feminina, constituir família, escolher profissão, seguir estudos, empreender negócios... A vida econômica criou oportunidades. A ascensão e liderança comunitária, na proporção do avanço da idade, foi magnífica e próspera.
Os amigos, agora como famílias, continuaram o relacionamento. Este, para poder continuar a funcionar a contento, obrigou a estabelecer um tratado (verbal). Ele relacionou-se a questão financeira/dinheiro. Ninguém, um ao outro, deveria pedir empréstimos ou solicitar socorro monetário. Nada de maiores negócios mútuos. A amizade e consideração deveriam prevalecer. Bons amigos e nada de maiores discursões sobre finanças (nos momentos das confraternizações e visitas mútuas). Puderam, dessa forma, estender a amizade e relacionamento nas décadas sucessivas e ao longo das suas vivências.
Esta é uma problemática comunitária/familiar. Os relacionamentos envolveram ganhos, divisões de espólios/patrimônios, negócios de sociedades... Iniciam as desconfianças e desavenças. Irmãos, criados pelos idênticos pais, começam a fraquejar no conjunto das convivências. Confraternizações deixam de ocorrer, visitas começam a fraquejar, falatórios tomam forma... Os interesses, com a constituição familiar e negócios, passam a divergir. “Os forasteiros”, como genros, noras, namoradas, passam a opinar e interferir na outrora família. “Cada qual tenta puxar o assado para o seu lado” e instala-se o cisma. Irmãos acabam brigados/intrigados. A indiferença domina e velhas mágoas afloram.
A vida, na real, mostra-se muito breve para conviver com brigas e intrigas. O cidadão nada leva desse mundo! Pode satisfazer-se com pouco (na proporção de uma aparente vida espartana). Trabalhar para angariar dividendos? Pra quê? Para outros viverem brigando pelo patrimônio alheio? Ganha tudo, no final da história, quem menos batalhou e mereceu! Quem fácil ganha, cedo costuma desperdiçar (em função da pouca valorização do recebido). Uma lástima algumas clãs viverem intrigadas em função de espólios. Visitar parentes, conversar de forma despreocupada, rememorar velhos fatos, compartilhar conquistas dos sobrinhos... Ostenta-se uma dádiva divina! Vivamos, portanto, na melhor harmonia com os nossos! Deixa os interesses financeiros excluídos. “Viva de forma justa no dia de hoje, pois o amanhã só a Deus pertence”.
Dinheiro foi criado para facilitar relações, porém tornou-se instrumento de desavenças e desgraça. Tratou a questão de dinheiro e as pessoas mudam sua forma de agir e ser. Inúmeras pessoas acumulam como pudessem levar algo para o além. Certos sentimentos mostram-se alheios à questão monetária. Versa, a tradição oral, “de que quem estraga as famílias são aqueles que entram nelas”.
Guido Lang
“Singelas Histórias do Cotidiano da Vida”

Crédito da imagem: http://www.hospitalpadreze.org/1/index.php

domingo, 2 de dezembro de 2012

O pote da verdade



No início do mundo, o anjo designado a trazer o pote contendo a verdade foi atacado por demônios que, obviamente não queriam que a verdade chegasse aos homens.
A briga nas alturas foi tão feia, que o anjo, embora defendendo a verdade com toda a valentia, não conseguiu evitar que as hordas demoníacas lhe tomassem o pote.
Mas para evitar que a verdade se perdesse para sempre, deu um único golpe, que fez com que o pote contendo a verdade se quebrasse em milhões de pedaços que foram espalhados pelo vento pelos quatro cantos do mundo.
Cada um dos seres humanos então existentes, acabou achando um pedaço do pote da verdade que, justamente por se tratar da verdade, eram tão belos e brilhavam tanto que os ignorantes achavam que estavam diante de toda a verdade. Ao invés de juntarem os pedaços para reconstruir o valioso pote, cada um passou a dizer que estava diante de toda a verdade.

Autor Desconhecido

Crédito da imagem: http://www.robsonpiresxerife.com/blog/notas/ja-estao-indo-com-muita-sede-ao-pote-no-governo-da-rosa/

Os centavos


Um certo morador, como de rotina, foi a fruteira adquirir seu tradicional abacate, banana, limão, maçã, mamão, tomate... Este tornou-se  um velho conhecido dos comerciantes. Um hábito, comparado aos demais clientes, salientava-se nele. Este nada colocava na balança sem primeiro conhecer/perguntar/vislumbrar os valores das mercadorias/produtos. Ostentava-se chato e metódico neste item.
O indivíduo, no final de determinada compra, alcançou/deu uma graúda nota. A atendente/moça, com escasso troco, mantinha dificuldade de descontar/trocar os cem. Ajuntou notas aqui e acolá; nada de fechar no valor. Precisou unicamente de mais dez centavos para completar a troca. A solução, para não ficar correndo na vizinhança, foi dar o desconto. O senhor cliente, naquele momento, nada falou e manteve-se como satisfeito!
Achegou-se, na semana vindoura, a idêntica compra. Avolumou produtos e foi à balança. Pesou e a atendente, na calculadora, foi acrescentando/somando valores. Pesado e ensacado as mercadorias/produtos, achegou-se a hora do acerto do devido/pagamento. O valor foi tal e o cidadão pediu para somar os devidos (dez centavos). A moça, atendendo inúmeros clientes num único dia, nem mais lembrava-se do fato.
O senhor disse-lhe: “- Aqueles dez centavos, devidos da semana passada, são de vocês. O lucro é a sobrevivência do negócio! Se não o tiverem, fecham! Vocês cerrando as portas, não posso mais comprar? Gosto da qualidade dos serviços! ‘Quem não valoriza os centavos, acaba privado dos reais’. Quê não é da gente, não devemos aspirar! Alegra-me e torço pelo sucesso alheio”. A moça admirou e comentou a honestidade e sinceridade do senhor. Ele, com seu singelo gesto, aumentou o crédito e a estima! Os poucos centavos compraram admiração e consideração!
Singelos atos demonstram a real grandeza de espírito. A confiança e honestidade conquistam-se na transparência dos atos. Um pouco aqui e acolá, no conjunto, somam polpudos valores! Quem equivoca-se com míseras somas, imagina gerenciando vultosas quantidades!

Guido Lang
Livro “Singelas Histórias do Cotidiano da Vida”

Crédito da imagem: http://alemdamargem.blogspot.com.br/2011/11/meus-dois-centavos-sobre-o-assunto.html

sábado, 1 de dezembro de 2012

As pérolas da providência


    Um viajante, num desses desertos abrasadores e arenosos das Arábias, tinha se perdido. Um lugar, sem avistar uma só habitação, caminhava-se semanas inteiras.
   Ele estando a morrer de fome e sede, descobriu enfim uma palmeira, à sombra da qual corria um regato de água fresca. Achou, numa extrema casualidade, também ao pé da árvore um saquinho.
  “Seja Deus louvado por tamanha graça! Alimento!” Exclamou o viajante, apalpando o achado. Podem talvez ser ervilhas, que me impedirão de morrer de fome. O extraviado, assim falando, abriu esfomeado o saquinho e exclamou desapontado:
    “Ah, meu Deus! São pérolas!” O desgarrado viajante ia morrer de fome, não obstante de estar de posse de afortunado tesouro. Elas, pelas contas do mercado, valiam fortunas. O infortunado, nesta aflição e desespero, orava com fervor. Eis, que de repente, apareceu um árabe sobre um camelo. Este caminhava a toda pressa, pois encontrava-se a procura do perdido. Contente de localizar e receber a devolução das suas pérolas, compadeceu-se do forasteiro. O árabe deu-lhe pão e frutas deliciosas. Este recuperado nas energias, fez o montar também sobre o animal. Tratou de levá-lo ao termo de sua viagem, sem que o viajante corresse maiores perigos.
   - Repare, disse o bondoso homem, que admiráveis são os meios de que se serve o Criador. Eu lamentava como uma grande desgraça a perda das minhas pérolas; todavia nada mais feliz podia acontecer. Deus assim o quis, para que eu obrigado a voltar, chegasse aqui a tempo de salvar-te. Deus, por meios de aparências bem singelas livra-nos dos flagelos. Ele costuma fechar uma porta e abre diversas outras (J. M. de Lacerda).

(Fonte: Terceiro Livro de Leitura, Petrópolis/RJ, Vozes, 34 ed., 1921)

Crédito da imagem: http://www.reflexoesevangelicas.com.br/2012/05/deserto-vazio-frieza-trilha-rumo-ao.html

O trabalho


Um trabalhador, ligado à faxina/limpeza, via inúmeros colegas no aparente ócio. Estes, enfurnados em computadores, livros e telefones, pareciam ostentar a maior folga e moleza. O fulano, nestas idas e vindas, pensou: “-Queria eu um trabalho desses? Veja os caras conversando e passeando e, no final do mês, ganham o dobro ou o triplo do que eu em salário. Quê ostentam diferente de mim? Quais as razões desse desnível social?”...
O cidadão, numa dessas conversas informais - “daquelas de jogar palavras ao vento” - comentou o tema (com os profissionais de área). Disse, na presença do grupo, aos colegas: “-Queria eu um trabalho desses de vocês? Ficar os dias sentados em frente aos computadores? Mexem só com dados/informações? O serviço público paga até para ler os diários/jornais (virtuais)! Coloca bênção e moleza nisso?” Um dito formado/profissional ouviu a ladainha e sentiu-se atingido na exposição. Aquela história de ter falado o assunto à pessoa imprópria! Ouviu o que nem imaginara ouvir!
O profissional, com dezenas de anos em bancos escolares e investimentos graúdos em formação, explanou-lhe: “-Como comparas o teu trabalho com o meu? O nível de exigências mostra-se bem diverso! O pessoal do setor trabalha com informações! A tua labuta consiste em limpezas. Pergunta-te o número de anos de estudo? Os reais investidos em formação? Os níveis de cobrança? Quantos cursos e palestras de complementação? O número de livros manejados? Conhecimentos de específicos de área/profissão? A dureza na efetuação do concurso público?” O camarada saiu constrangido da conversa! Melhor teria sido em ficar quieto! Difícil falar com os doutores sem ouvir uma série de argumentos!
Certas realidades nem adianta reclamar ou querer mudar! Prevalece à formação e pouco entra o mérito empírico do conhecimento. Aquele que almeja galgar postos obriga-se a investir em formação escolar. Prevalece, no mercado do serviço público, a formação externada em títulos. O indivíduo tem a tendência de achar o trabalho alheio mais fácil que o próprio. Cada labuta e tarefa com suas conveniências e inconveniências. O melhor consiste consorciar profissão com vocação. O ganho assume ares de brincadeira e passatempo!
Guido Lang
“Singelas Histórias do Cotidiano da Vida”

Crédito da imagem: http://hfmoveisplanejados.com.br/moveis-para-escritorio.html

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Não acredite



"Não acredite em algo simplesmente porque ouviu. Não acredite em algo simplesmente porque todos falam a respeito. Não acredite em algo simplesmente porque está escrito em seus livros religiosos. Não acredite em algo só porque seus professores e mestres dizem que é verdade. Não acredite em tradições só porque foram passadas de geração em geração. Mas depois de muita análise e observação, se você vê que algo concorda com a razão, e que conduz ao bem e beneficio de todos, aceite-o e viva-o".

Buda (563 a.C - 483 a. C.)

Crédito da imagem: http://porquenaocreio.blogspot.com.br/2011/07/descricoes-de-buda-e-jesus-cristo.html

O tesouro dos Mucker


     Uma história oral, narrada de boca em boca entre membros das famílias tradicionais da região, moradores circunvizinhos ao local do Episódio do Ferrabraz (1874), relaciona-se ao tesouro dos Mucker. Aventureiros esporádicos ambicionaram deparar-se com as malfadadas riquezas. Estas teriam sido escondidas ou enterradas pelos seguidores da Jacobina Mentz e João Jorge Maurer. O conjunto de jóias e moedas (de ouro e prata do II Império) encontraria-se nalgum esconderijo das encostas dos morros (circunvizinhas do Ferrabraz). As encostas/elevações, entre os atuais municípios de Dois Irmãos, Campo Bom e Sapiranga/RS, manteriam o resguardo dos materiais... Um amontoado de relíquias ímpares que teriam, em boa dose, sido trazido da Alemanha e outros acumulados durante o Império Brasileiro (1822–1889). Os coloniais, em meio às enormes dificuldades de toda ordem, mantinham uma extrema filosofia de poupadores , porque, a qualquer custo, quiseram resguardar-se dos infortúnios da vida. Os recursos, advindos de suas suadas economias e heranças, teriam sido avolumados/juntados durante a formação e evolução da “seita”. Estes provavelmente ambicionaram adquirir armas, manter espírito de solidariedade (como os cristãos nos Atos dos Apóstolos), custear encargos comunitários, comprar terras (nas novas áreas de colonização)...
     Os boatos, comentários e fofocas das excepcionais riquezas, corriam soltos na boca da população. Inúmeros forasteiros envolveram-se nos eventos bélicos, de abril a agosto de 1874, em função dessas conversas. Os mercenários, vindos das diversas procedências da província, invadiram os lugarejos próximos ao Morro do Ferrabraz, pois queriam colocar as mãos naquela fortuna. Inúmeros indivíduos diziam-se exímios combatentes. Eles lutaram contra uma centena de sectários dos Maurer. As matas, plantações e potreiros viviam infectados de adversários e aventureiros. Estes, juntos aos moradores (inimigos), controlavam os passos dos incompreendidos. As esporádicas escaramuças sucediam-se através confrontos verbais, disparos ocasionais, incêndios de propriedades... As atrocidades, em meio aos desentendimentos, eram permitidas pela segurança pública (pouco interessada em serenar ânimos). Autoridades pareciam atiçar a “guerra entre aparentados e irmãos”. A(s) crueldade/desavenças, reprimida(s) por anos, tinha sobre quem recair, porque simpatizantes ou seguidores dos Maurer eram sempre os autores e culpados. Animais, pomares e plantações viam-se destruídos ou surrupiados (das propriedades) e a conversa era “coisa dos Mucker”.
    O desfecho sangrento, em junho a julho de 1874, teria levado Jacobina e João Jorge Maurer a esconder peças. Estes, às pressas (em meio ao tumulto dos últimos dias), teriam os escondido ou enterrado nalgum lugar das encostas ou sopé dos morros (grutas). Queriam resguardar-se da cobiça e ganância dos adversários. Os poucos quilos de minerais necessitariam duma segurança em função do tamanho esforço e sacrifício em acumular. Uma adequada guarda e proteção seria motivo de prudência e sabedoria. A entrega eventual, a conhecidos ou familiares, poderia gerar conflitos e intrigas. O indivíduo nunca sabe os interesses alheios, que costumam mudar muito rápido conforme as conveniências. A segurança maior poderia unicamente consistir no seio da terra. Este, pela experiência e vivência, costuma por séculos ou milênios proteger relíquias. Os espaços imaginados, como árvores, rochas e valos, poderiam servir de lugar excepcional. O ato, além dos Maurer, certamente recaiu sobre os íntimos da família, que acabaram trucidados.
   A hecatombe, em 2 de agosto de 1874, abateu-se sobre o grupo familiar íntimo. Os assassinatos e suicídios foram uma realidade. As lideranças caíram em desgraça e o segredo foi levado às tumbas. Os autores esqueceram de revelar o paradeiro do tesouro, que tanto contribuiu para acentuar o número de inimigos. Ele provavelmente repousa nos brejos e matos da circunvizinhança ao imponente Ferrabraz, pois jamais sugiram informações sobre achados (ou mantiveram-se na discrição). O espírito dos desventurados, em meio aos remorsos da tragédia, arrogam-se por ventura o direito de resguardá-lo.
     Inúmeros aventureiros e moradores, conhecedores da história dos bastidores do Episódio do Ferrabraz, “ousaram colocar as mãos”. As tentativas falharam e outras continuam a desafiar a cobiça e imaginação, em meio às picadas e trilhas da vegetação. Vários elementos procuram disfarçar as inúmeras procuras, alegando praticar caçadas e trilhas (com vistas de conhecer o cenário geográfico). Alguns dão vazão ao espírito de aventureiros e caçadores, que, por alguma razão, fazem relações com velhos galeões espanhóis. Uma façanha interessante para amantes de caminhadas ecológicas e desbravadores de enigmas. O mistério do tesouro dos Mucker, portanto, parece estar muito mais viva como aparece aos apaixonados e estudiosos do tema. Uma história comunitária contada em diversas conversas informais ou de ouvido em ouvido (entre membros da descendência germânica e com ancestrais envolvidos no conflito). Este, no contexto das novas gerações, parece superado, porém sobrevivem relatos da tragédia (no acontecimento fratricida da história da imigração teuta em terras americanas). Certas conversas sempre ostentam um fundo de verdade (talvez não seja diferente com a história desse tesouro).

Guido Lang, O Fato n° 1006, dia 06/02/1996, pág. 02.

Crédito da imagem: http://nostalgizar.blogspot.com.br/2012/09/bau-de-memorias-imprestaveis.html