Um casal, em meio a
uma dezena de hectares de terra, criou nove filhos. Uma esperança para uma
velhice abonada e tranquila.
As áreas de encosta, dominadas por roças,
levaram a uma penosa labuta braçal. Alguma produção de milho, mandioca e leite
permitia a subsistência familiar. Os poucos reais, numas décadas de vivência,
viam-se cuidadosamente contados e investidos. Quaisquer dispêndios e
imprevistos levariam ao endividamento e ruína financeira.
A família, com “uma escadinha de filhos”, foi
sobrevivendo as dificuldades. Esta, numa época, desdobrou-se para atender as
muitas necessidades. Os rebentos, com as possibilidades mínimas de educação e
formação profissional, conheceram logo a iniciação ao trabalho. Os anos
escolares foram restritos a escola comunitária. Eventuais possibilidades, duma
educação fundamental, secundária e superior, decorriam do esforço pessoal de
cada interessado.
Os rebentos, diante das carências de toda ordem,
empregaram-se nas cidades como autodidatas. Eles labutaram e trataram de namorar.
A constituição de famílias foi rápida e prevista. Os pais, com a aposentadoria
rural, seguiram os filhos (para o ambiente urbano). O singelo lote acabou
comercializado e a maioria da área viu-se retomado pelo brejo e mato.
A velhice trouxe a triste sina da realidade
da sociedade contemporânea. Os filhos, com seus próprios rebentos, não possuem
tempo. Eles necessitam dedicar-se a profissão e ganhar a sobrevivência. Estes tem carência de tempo para cuidar dos
idosos pais. Os genitores, agora anciões, não tem como serem cuidados por algum
herdeiro.
Os
familiares obrigam-se a pagar estranhos para cuidar dos genitores. Eles, aos
trancos e barrancos, criaram nove. Pai e mãe esperavam de algum descendente
cuidá-los na penúria da existência. A alternativa consistiu em improvisar até a
chegada do derradeiro!
O
indivíduo nunca sabe do infortúnio no aguardo da esquina. Certos exemplos falam
por si só como ensinamentos. Os fracassos familiares, com as preocupações
excessivas em ganhar dinheiro, tem sido uma realidade social.
Guido Lang
“Singelas da
Existência”
Crédito da imagem:http://www.turismo.rs.gov.br