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terça-feira, 24 de julho de 2012

UMA BELA ÁRVORE

Professor Guido Lang

Um filho, em meio a convivência rural, perguntou a seu pai sobre o fenômeno da vida. Que seria a existência neste mundo agitado, competitivo e corrido?
O pai, na sua sabedoria acumulada por anos, fez um comparativo:
- "Querido filho! Você é a razão da minha existência. Faça da sua vida uma frondosa árvore, que embeleza e engrandece o meio natural. As raízes, afundadas e escondidas no solo, são a tua inteligência, que segura e protege contra os infortúnios. Os amigos, estudos, família, moradia e trabalho são a seiva, que sustenta toda a planta. O tronco, galhos e folhas retratam a tua grandeza de espírito, em que reina o amor, a amizade, a ética, a inteligência, a sabedoria... O sol, com os magníficos raios sustenta o verde, que é resultado da colheita. Os galhos e gravetos murchos ou secos, escondidos em meio a folhagem, são dificuldades, feridas e problemas, que relembram-nos da transitória condição humana. O conjunto das partes, na revelação das centelhas divinas, forma uma criação ímpar, que deve ser uma bênção para a família e a vida."
Alguns modestos comparativos excedem a mil palavras. A existência é um enigma que devemos colocar a disposição da multiplicação da vida.

segunda-feira, 23 de julho de 2012

UMA PÉROLA PARA A VIDA

Então, o meu pai disse-me, dando-me uma das maiores lições da minha vida, a qual levarei até o fim de meus dias: "- Tu verás a todos os homens, desde o mais humilde até o mais nobre, pois cada indivíduo possui algo para ensiná-lo e todos os homens são iguais perante a Deus! Tu gostará da tua aldeia, no entanto, serás um cidadão do mundo! Terás momentos de alegria e tristeza, como todos os que andam sobre a Terra o têm, todavia, sobretudo, amarás a Humanidade porque dela tu faz parte!"

Júlio Lang


domingo, 22 de julho de 2012


ARTIMANHAS E BRINCADEIRAS COLONIAIS

Os roubos eram fatos raros nas comunidades rurais, quando, num dom de astúcia, permitia-se roubar unicamente galinhas e melancias. O proprietário das aves, com a razão de mostrar a esperteza e ousadia, era comumente convidado à ceia, quando noutro dia, unicamente notava a ausência das suas adoradas e preciosas poedeiras. Este, num primeiro instante, nem quisera acreditar nos fatos, quando “pregaram-lhe uma tremenda peça”.
A invasão da roça alheia, com a finalidade de obter algumas melancias, era uma brincadeira rotineira no meio colonial. A existência de uma abastada e bonita lavoura de frutos cedo espalhava-se aos quatro ventos, quando alguma turminha de malandros improvisava uma visitinha.
A invenção de histórias, aos fofoqueiros, consistia noutra artimanha, quando alguém, com vista de aplicar um bom trote ao “comentarista voluntário”, criava alguma mentira. Esta era narrada ao ouvinte, que, na primeira oportunidade, tratava de passar adiante a versão. Os fatos contados costumeiramente eram assuntos combinados com os atingidos, quando os comentários não passavam de um “baita invenção”.
O baralho era um passatempo rotineiro nas colônias, quando, em meio ao jogo, alguém prestava-se “a fazer mutretas”. Este não sabia perder, quando tratava-se de valer-se de artifícios. Estas, como, dar-se maior número de cartas ou esconder outras, era descoberto, quando o elemento desonesto era colocado “em banho-maria”. Ele era paulatinamente excluído das rodadas.         
A existência de tesouros, nos remotos interiores, fascinou a imaginação de aventureiros e caçadores de riquezas. As conversas comunitárias costumeiramente criavam histórias e lendas, quando surgiam recantos misteriosos. Estes, nos cemitérios, grutas, igrejas, matas e moradias, eram procurados, quando forasteiros, nas caladas da noite e no transcorrer de domingos, davam-se tempo de vasculhar lugares e trabalho de cavoucar buracos. A inutilidade da procura era causa de gargalhadas e os esporádicos sinais de riqueza motivo de mais peripécias.

Guido Lang
Escritor, historiador e professor
Revista Vitrini, n°35, outubro de 1997, p.16.

sábado, 21 de julho de 2012

O VALE DA PROMISSÃO

O Vale dos Sinos/RS/Brasil, em 25/07/1824, começou a tornar-se a "terra prometida", para um conjunto de forasteiros europeus. Estes, em meio ao embalo das águas de um curso pluvial - com alguma semelhança com o tradicional Rio Reno, iam chegando nessas plagas. As canoas, caiques, lanchões foram sucessivamente trazendo uma massa de aventureiros, que foram abrindo picadas, derrubando matos, semeando sementes... nesta exuberante e promissora terra. Um insistente e permanente trabalho, sem trégua de sol a sol, possibilitou a produção de uma abundância de bens. O sucesso produtivo permitiu a introdução de um novo modelo de geração de riquezas. A agricultura minifundiária de subsistência, viu-se implantada em terras sulinas, quando a labuta braçal e familiar passou a ser encarada como uma questão de dignidade e orgulho. "O vale da fartura", deitado séculos em berços explêndidos, conheceu uma revolução, quando banhados, campos e matas viram-se tomados por lavouras, pomares e potreiros. As principiantes localidades tiveram uma sociedade colonial, no qual pipocavam cemitérios, escolas e igrejas. As chaminés, de toda ordem, não tardavam a pipocar nos diversos cantos e recantos, quando não faltavam atafonas, curtumes, ferrarias, moinhos, selarias, serrarias... Estas, em anos e gerações sucessivas de trabalho, lançaram os esteios para um grandioso parque industrial. Um monumento de labuta, belo e sólido, tornou-se um modelo para gerações, que perenemente processaram a continuidade na criatividade e inovação de uma gama de artigos-produtos. Cabe-nos, como herdeiros e sucessores dos pioneiros, continuar a grandiosa obra que manterá este solo continuamente abençoado.

Guido Lang
Escritor, historiador e professor
Revista Vitrini, n°32, julho de 1997, p.24


sexta-feira, 20 de julho de 2012

A MARAVILHA DO SER PROFESSOR


Descrever a tarefa de ser mestre é difícil, porque lecionar envolve todo o emaranhado da vivência humana. Trabalhar em educação significa confrontar-se com desafios, emoções, sentimentos, críticas, questionamentos...
Mestre transformado em operário da educação, representa defrontar-se com a diversidade dos tipos humanos. Professorar é atualizar-se, compreender, elogiar...; é apontar caminhos, despertar consciências, criar cidadãos...; é despertar para as artes, o conhecimento, a ciência, a evolução do espírito...; é acreditar nas inovações, potencialidades, transformações, criação de valores, edificação de sociedades...
Mestre entusiasma-se com o estudo, a pesquisa, o trabalho e o sucesso; chateia-se, frustra-se e importuna-se com o desinteresse, a inércia e a preguiça. Professor cria laços, cultiva amizades, vive problemas, encaminha propostas, desperta vocações, compreende dificuldades...
Ensinar é educar, instruir, estimular, colocar limites, despertar horizontes, preparar à vida... E não adestrar, castrar, dirigir, doutrinar...
O professor é aquele cidadão que é admirado, amado, desafiado, discutido, cobrado... Ser mestre é ser perito na sabedoria, equilibrado nas resoluções, rico de experiências, amplo nos conhecimentos, sábio de vivência...
O mestre imortaliza-se através da administração do conhecimento, sabedoria e na construção do bem comum: enche-se de esperanças com o amanhã, no qual predomina o amor, a concórdia, justiça...
Professorar significa semear as sementes do porvir, que germinarão no jardim da vida. O professor, no final da jornada, fica com a consciência serena de, no final da existência, ter cumprido, de uma ou outra forma, para o avanço da ciência, fraternidade e evolução do espírito humano.
                                                                                       

Guido Lang
Jornal O  Municipário
Informativo do Grêmio do Sindicato dos Funcionários de Novo Hamburgo
Setembro 1993,     p.04.



quarta-feira, 18 de julho de 2012

Fragmentos da Sabedoria Colonial


Os colonos desenvolveram um amplo conhecimento e sabedoria, que liga-se aos diversos aspectos existenciais. A arte e o trabalho de edificar as residências coloniais não fugiu a regra, quando ganhou uma atenção e preocupação especial.
Estas foram preferencialmente instaladas nas encostas de algum cerro ou colina, no qual sucediam-se abundância de águas e radiação solar. Uma boa e fresca água corrente era uma necessidade básica ao consumo, no que dependia também o sucesso das criações. A insolação era compreendida como excelente meio terapêutico, quando inibia a ação de bactérias patológicas. Os animais domésticos, com abundante exposição solar, pareciam ostentar um maior e melhor desenvolvimento e vigor, quando tem um ciclo vital muitíssimo ajustado a rotação terrestre. Os humanos integrados ao ritmo da natureza, pareciam auferir de idênticos benefícios.
Uma moradia, incrustada nalguma elevação, oferecia a vantagem de apresentar amplo porão, no qual podia-se armazenar sementes, guardar ferramentas, ostentar espaços frescos (nos dias de excessivo calor)... A ventilação, nalguma utilidade, senão maior, quando a qualidade do ar seria melhor assim como as geadas seriam menos rigorosas. Eventuais modéstias igualmente poderiam ser facilmente evacuadas com as águas das chuvas, quando também não haveria os terrenos encharcados. Os animais e humanos, no período de precipitações, poderiam circular com maior facilidade pelos pátios. A visão panorâmica era outro ingrediente básico, quando poderia-se acompanhar e controlar a movimentação de cercanias. Um fácil e rápido acesso, a partir do caminho geral e das estradas de roça, igualmente mantinham-se noutra inquietação.
Os coloniais, dentro das condições da área, levaram em consideração o maior número de benefícios auferidos, quando constantemente, na vida, edificava-se uma única e exclusiva moradia. Um agradável e belo ambiente e cenário residencial, como na atualidade, era compreendido como bem estar social, felicidade existencial e sucesso profissional. A longevidade e tranquilidade de vida tinha seus enigmas e sabedorias, que, nas conversas informais, passavam através de gerações.

Guido Lang
Escritor, historiador e professor
Revista Vitrini, n°34, setembro 1997, p. 13.

Crédito da imagem: http://projetopatrimonio.arteblog.com.br/9732/Casa-Enxaimel-V/

quinta-feira, 12 de julho de 2012

 UM ESTRANHO "BAGUAL"

Os balneários, nos arroios e rios, tornaram-se atrativos nos dias ensolarados e quentes de verão. Milhares de famílias urbanas, nos finais de semana e férias, dirigem-se aos recantos naturais, onde procuram descanso e lazer, com vistas a fugir da agitação, da correria e estresse nas cidades.
Os espaços de banhos e camping, de maneira geral, possuem uma improvisada e precária infra-estrutura, que se relaciona a churrasqueiras e sanitários. A educação dos visitantes, em diversas circunstâncias, pouco contribui para as boas condições de higiene e saúde, que são indispensáveis para uma convivência digna e saudável em sociedades massificadas. Inúmeros indivíduos, por desconhecimento ou malícia, urinam na água dos riachos, onde uma multidão toma banho.
Uma pacata família urbana, enjaulada atrás de grades durante a semana de trabalho, foi curtir os momentos de folga num desses balneários interioranos. Uma ceia familiar, em forma de churrasco, foi feita num matinho próximo ao local de banho, que se via tomado por forasteiros. O excessivo calor da cidade, dominada pelo asfalto e concreto, contribuiu para que dessem um passeio no refúgio natural, que se localizava a poucos quilômetros da residência familiar. O preço acessível do ingresso e a proximidade do local contribuíram para a escolha, pois os assalariados não podem dispender muitos recursos monetários em lazer e recreação.
O cidadão, pai da família de visitantes, entrou na água para curti-la e tomar um bom banho, com a maior calma do mundo. Ele, em meio a frescura do preciosos líquido, deu um discreto mergulho e suspirou em seguida, no contexto desse agradável ambiente. O indivíduo abriu a boca, espreguiçou-se e voltou a nadar; deparou-se, em meio ao suspiro e à natação, com um grande e tremendo "bagual" humano, que vinha nadando tranquilamente pela água do córrego. O camarada, durante a profunda respiração bucal, praticamente engoliu a necessidade fisiológica (fezes humanas), que muito o assustou e enojou.
A vida em sociedade reserva-nos inúmeras surpresas, agradáveis e desagradáveis, que nos fazem deparar com as mais variadas situações.

(Trecho extraído de "Contos do Cotidiano Colonial: Coletânea de Textos" de GUIDO LANG).