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sábado, 21 de julho de 2012

O VALE DA PROMISSÃO

O Vale dos Sinos/RS/Brasil, em 25/07/1824, começou a tornar-se a "terra prometida", para um conjunto de forasteiros europeus. Estes, em meio ao embalo das águas de um curso pluvial - com alguma semelhança com o tradicional Rio Reno, iam chegando nessas plagas. As canoas, caiques, lanchões foram sucessivamente trazendo uma massa de aventureiros, que foram abrindo picadas, derrubando matos, semeando sementes... nesta exuberante e promissora terra. Um insistente e permanente trabalho, sem trégua de sol a sol, possibilitou a produção de uma abundância de bens. O sucesso produtivo permitiu a introdução de um novo modelo de geração de riquezas. A agricultura minifundiária de subsistência, viu-se implantada em terras sulinas, quando a labuta braçal e familiar passou a ser encarada como uma questão de dignidade e orgulho. "O vale da fartura", deitado séculos em berços explêndidos, conheceu uma revolução, quando banhados, campos e matas viram-se tomados por lavouras, pomares e potreiros. As principiantes localidades tiveram uma sociedade colonial, no qual pipocavam cemitérios, escolas e igrejas. As chaminés, de toda ordem, não tardavam a pipocar nos diversos cantos e recantos, quando não faltavam atafonas, curtumes, ferrarias, moinhos, selarias, serrarias... Estas, em anos e gerações sucessivas de trabalho, lançaram os esteios para um grandioso parque industrial. Um monumento de labuta, belo e sólido, tornou-se um modelo para gerações, que perenemente processaram a continuidade na criatividade e inovação de uma gama de artigos-produtos. Cabe-nos, como herdeiros e sucessores dos pioneiros, continuar a grandiosa obra que manterá este solo continuamente abençoado.

Guido Lang
Escritor, historiador e professor
Revista Vitrini, n°32, julho de 1997, p.24


sexta-feira, 20 de julho de 2012

A MARAVILHA DO SER PROFESSOR


Descrever a tarefa de ser mestre é difícil, porque lecionar envolve todo o emaranhado da vivência humana. Trabalhar em educação significa confrontar-se com desafios, emoções, sentimentos, críticas, questionamentos...
Mestre transformado em operário da educação, representa defrontar-se com a diversidade dos tipos humanos. Professorar é atualizar-se, compreender, elogiar...; é apontar caminhos, despertar consciências, criar cidadãos...; é despertar para as artes, o conhecimento, a ciência, a evolução do espírito...; é acreditar nas inovações, potencialidades, transformações, criação de valores, edificação de sociedades...
Mestre entusiasma-se com o estudo, a pesquisa, o trabalho e o sucesso; chateia-se, frustra-se e importuna-se com o desinteresse, a inércia e a preguiça. Professor cria laços, cultiva amizades, vive problemas, encaminha propostas, desperta vocações, compreende dificuldades...
Ensinar é educar, instruir, estimular, colocar limites, despertar horizontes, preparar à vida... E não adestrar, castrar, dirigir, doutrinar...
O professor é aquele cidadão que é admirado, amado, desafiado, discutido, cobrado... Ser mestre é ser perito na sabedoria, equilibrado nas resoluções, rico de experiências, amplo nos conhecimentos, sábio de vivência...
O mestre imortaliza-se através da administração do conhecimento, sabedoria e na construção do bem comum: enche-se de esperanças com o amanhã, no qual predomina o amor, a concórdia, justiça...
Professorar significa semear as sementes do porvir, que germinarão no jardim da vida. O professor, no final da jornada, fica com a consciência serena de, no final da existência, ter cumprido, de uma ou outra forma, para o avanço da ciência, fraternidade e evolução do espírito humano.
                                                                                       

Guido Lang
Jornal O  Municipário
Informativo do Grêmio do Sindicato dos Funcionários de Novo Hamburgo
Setembro 1993,     p.04.



quarta-feira, 18 de julho de 2012

Fragmentos da Sabedoria Colonial


Os colonos desenvolveram um amplo conhecimento e sabedoria, que liga-se aos diversos aspectos existenciais. A arte e o trabalho de edificar as residências coloniais não fugiu a regra, quando ganhou uma atenção e preocupação especial.
Estas foram preferencialmente instaladas nas encostas de algum cerro ou colina, no qual sucediam-se abundância de águas e radiação solar. Uma boa e fresca água corrente era uma necessidade básica ao consumo, no que dependia também o sucesso das criações. A insolação era compreendida como excelente meio terapêutico, quando inibia a ação de bactérias patológicas. Os animais domésticos, com abundante exposição solar, pareciam ostentar um maior e melhor desenvolvimento e vigor, quando tem um ciclo vital muitíssimo ajustado a rotação terrestre. Os humanos integrados ao ritmo da natureza, pareciam auferir de idênticos benefícios.
Uma moradia, incrustada nalguma elevação, oferecia a vantagem de apresentar amplo porão, no qual podia-se armazenar sementes, guardar ferramentas, ostentar espaços frescos (nos dias de excessivo calor)... A ventilação, nalguma utilidade, senão maior, quando a qualidade do ar seria melhor assim como as geadas seriam menos rigorosas. Eventuais modéstias igualmente poderiam ser facilmente evacuadas com as águas das chuvas, quando também não haveria os terrenos encharcados. Os animais e humanos, no período de precipitações, poderiam circular com maior facilidade pelos pátios. A visão panorâmica era outro ingrediente básico, quando poderia-se acompanhar e controlar a movimentação de cercanias. Um fácil e rápido acesso, a partir do caminho geral e das estradas de roça, igualmente mantinham-se noutra inquietação.
Os coloniais, dentro das condições da área, levaram em consideração o maior número de benefícios auferidos, quando constantemente, na vida, edificava-se uma única e exclusiva moradia. Um agradável e belo ambiente e cenário residencial, como na atualidade, era compreendido como bem estar social, felicidade existencial e sucesso profissional. A longevidade e tranquilidade de vida tinha seus enigmas e sabedorias, que, nas conversas informais, passavam através de gerações.

Guido Lang
Escritor, historiador e professor
Revista Vitrini, n°34, setembro 1997, p. 13.

Crédito da imagem: http://projetopatrimonio.arteblog.com.br/9732/Casa-Enxaimel-V/

quinta-feira, 12 de julho de 2012

 UM ESTRANHO "BAGUAL"

Os balneários, nos arroios e rios, tornaram-se atrativos nos dias ensolarados e quentes de verão. Milhares de famílias urbanas, nos finais de semana e férias, dirigem-se aos recantos naturais, onde procuram descanso e lazer, com vistas a fugir da agitação, da correria e estresse nas cidades.
Os espaços de banhos e camping, de maneira geral, possuem uma improvisada e precária infra-estrutura, que se relaciona a churrasqueiras e sanitários. A educação dos visitantes, em diversas circunstâncias, pouco contribui para as boas condições de higiene e saúde, que são indispensáveis para uma convivência digna e saudável em sociedades massificadas. Inúmeros indivíduos, por desconhecimento ou malícia, urinam na água dos riachos, onde uma multidão toma banho.
Uma pacata família urbana, enjaulada atrás de grades durante a semana de trabalho, foi curtir os momentos de folga num desses balneários interioranos. Uma ceia familiar, em forma de churrasco, foi feita num matinho próximo ao local de banho, que se via tomado por forasteiros. O excessivo calor da cidade, dominada pelo asfalto e concreto, contribuiu para que dessem um passeio no refúgio natural, que se localizava a poucos quilômetros da residência familiar. O preço acessível do ingresso e a proximidade do local contribuíram para a escolha, pois os assalariados não podem dispender muitos recursos monetários em lazer e recreação.
O cidadão, pai da família de visitantes, entrou na água para curti-la e tomar um bom banho, com a maior calma do mundo. Ele, em meio a frescura do preciosos líquido, deu um discreto mergulho e suspirou em seguida, no contexto desse agradável ambiente. O indivíduo abriu a boca, espreguiçou-se e voltou a nadar; deparou-se, em meio ao suspiro e à natação, com um grande e tremendo "bagual" humano, que vinha nadando tranquilamente pela água do córrego. O camarada, durante a profunda respiração bucal, praticamente engoliu a necessidade fisiológica (fezes humanas), que muito o assustou e enojou.
A vida em sociedade reserva-nos inúmeras surpresas, agradáveis e desagradáveis, que nos fazem deparar com as mais variadas situações.

(Trecho extraído de "Contos do Cotidiano Colonial: Coletânea de Textos" de GUIDO LANG).




A FIGUEIRA CENTENÁRIA



As colônias alemãs, sobretudo do Vale do Taquari, foram abaladas pela Revolução Federalista (1893 - 1895). Os maragatos e pica-paus continuamente incursionavam pelas picadas, e ambos adonavam-se de víveres e roubavam as casas comerciais. 
Os colonos, em diversas oportunidades, viram suas criações e plantações pilhadas. As tropas, sem mantimentos, abasteciam-se nas pacatas pequenas propriedades rurais, que cediam aves, bovinos e suínos, assim como montarias. Os moradores, com vistas a não sofrer maiores represálias, cediam os bens. Os dividendos monetários, acumulados com muita economia e trabalho, também necessitaram de esconderijos seguros, pois atiçavam a cobiça humana.
Um morador colonial, perseguido pelos maragatos (por ser simpatizante dos castilhistas), precisou esconder-se no interior dos matos da sua propriedade, pois recebia, constantemente, visitas de inimigos. Estes, a todo momento, procuravam-no com o intuito de degolá-lo, era tido como informante dos republicanos. Necessitou também esconder seu numerário financeiro, que consistia nalguns quilos de moedas de ouro e prata (do período colonial). Ele, como refugiado, resolveu armazená-lo no interior de um orifício oco do tronco da tradicional figueira centenária. O colono, com convicção, confiou na segurança daquela guarda, pois o período revolucionário certamente seria breve.
A instabilidade política e a perseguição estenderam-se por meses. O cidadão, num belo dia, veio a adoecer e a morte súbita ceifou-lhe a existência. O dinheiro, durante décadas, ficou guardado no interior de uma exuberante figueira, que mantinha-se como símbolo da perenidade. As gerações de familiares, vinham e iam, e nada de desfazer o mistério das moedas. Ele, inclusive, tinham dado origem a histórias familiares, que eram narradas de pais para filhos. Os forasteiros e moradores, em diversas ocasiões, chegavam a abrigar-se nas sombras da formosa árvore, que não parecia ostentar maiores segredos.
Um agricultor, com vistas a fazer uma espaçosa roça, resolveu derrubar a árvores, que, com o advento da mecanização agrícola, representava um estorvo. A motosserra, em poucos minutos, foi ceifando e retalhando a planta, quando, numa certa altura, escutou-se um estranho ruído. O barulho denunciou a presença de metais, e vieram à tona as extraviadas moedas. Uma alegria tomou conta do pacato trabalhador rural que, casualmente, deparou-se com a fortuna.
A vida, em escassas oportunidades, defronta-nos com dádivas e surpresas.

(Trecho extraído de "Contos do Cotidiano Colonial: Coletânea de Textos" de GUIDO LANG).


Crédito da imagem: http://www.tuapalavra.com/login/fotos/6975b89101.htm
O PELEGO DO DEGOLADOR MARAGATO



Uma propriedade colonial, em 1893, conheceu uma invasão repentina dos maragatos. Os federalistas, de sopetão, entraram nas instalações rurais, e proprietários e familiares nem tiveram tempo de fugir para os matos próximos.
O colono, para safar-se de maiores represálias, atendeu bem aos forasteiros indesejáveis pois tinha ouvido falar dos recentes horrores da guerra fratricida entre o povo riograndense, pois irmãos gaúchos degolavam-se por divergências políticas.
O morador, vivendo bastante isolado, conhecia pouco das divergências ideológicas entre federalistas e republicanos, que ensanguentavam barbaramente o solo do Rio Grande do Sul. O cidadão, na prática, almejava viver em paz e labutar na terra para dela extrair seu sustento. Os seus pais, há poucas décadas, tinham abandonado a Europa com a finalidade de safar-se das intermináveis guerras europeias.
O chefe maragato, Altenhofen, falou da necessidade de cavalos e mantimentos diante da precisão de guerra,   porque a tropa de combatentes via-se carente de provisões e recursos. O colonial, com o objetivo de poupar aborrecimentos e a vida, cedeu gado, equinos e suínos, que acabaram abatidos no lugar, e os animais de montaria que foram levados. Um revolucionário viu ainda estendido um excepcional pelego, que muito lhe agradou. O colono, diante do temor das armas, deu-o de cortesia, pois não queria maiores implicações com os rebeldes.
Alguns meses depois um filho do morador dirigiu-se da Linha Schmidt para a Picada Catarina. Este, com sua montaria, viu-se parado, próximo ao Passo da Capivara, por uma turminha de maragatos. Os revolucionários, por alguma razão, quiseram degolá-lo.
O carrasco, com a determinação recebida do superior, encontrava-se pronto para concretizar o ato. A vítima, em meio ao maior desespero e na última tentativa de safar-se da vida, falou: "Estás vendo aquele pelego no teu cavalo? Meu pai deu-lhe como presente e agora, como gratidão, almeja matar seu rebento?" O algoz sensibilizou-se diante da afirmativa e respondeu: "Toma o teu potro e some daqui. Não saia de casa durante a Revolução Federalista". O modesto pelego salvou-lhe a vida e o cidadão refugiou-se no interior duma propriedade.
Pequenas cortesias aproximam as pessoas e resultam, costumeiramente, em troca de favores.

(Trecho extraído de "Contos do Cotidiano Colonial: Coletânea de Textos" de GUIDO LANG).

terça-feira, 10 de julho de 2012

O chamado do velho índio


O povo brasileiro tem muitas crendices e superstições, que refletem o quadro da miscelânea cultural. Inúmeras histórias são narradas de boca em boca, mas dificilmente ganham uma redação. O povo humilde dificilmente se dá o tempo e o trabalho de elaborar escritos, que descreviam sua rica vivência.
Uma modesta família colonial tinha um pedacinho de terra próxima a um riacho, onde havia uma árvore centenária. A mulher, com frequência, ia ao córrego com o objetivo de lavar as roupas, porque não existia encanamento de água na residência. Inúmeras idas e vindas faziam-se ao longo dum ano de penosa labuta.
A mulher, numa tarde, ouviu uma voz que saía do fundo daquela terra, próxima do centenário vegetal. Esta, num primeiro instante, pensou tratar-se de alguém conhecido, mas olhou pelas redondezas e nada viu. Procurou prestar mais atenção em relação à procedência daquele chamado, que, vindo do solo, assustou-a tremendamente.
Esta, em meio a temores, atendeu ao chamado, que dizia tratar-se dum indígena.
Um velho pajé, com a função de feiticeiro, profeta e sacerdote, tinha sido enterrado há décadas naquele espaço, mas sua alma ainda perambulava pelas redondezas daquele cemitério indígena.
A mulher achou tratar-se de um comunicado sobre a existência de tesouros.
As escavações, em poucos dias, iniciaram mas não se encontrou nada de valioso.
A família, por causa do trabalho, mudou-se para a cidade e os moradores do local acharam que esta tinha encontrado a ambicionada fortuna.
A coincidência da mudança tinha criado mais um conto colonial, no qual mesclam-se fatos concretos com imaginários.
Os seres humanos possuem mente fértil quando se trata de riquezas, pois histórias não faltam nas conversas informais sobre enriquecimentos.
Os próximos parecem ganhar sempre mais fácil o dinheiro do que a gente.


(Trecho extraído de “Contos do Cotidiano Colonial: Coletânea de Textos” de Guido Lang).

Crédito da imagem: http://downloads.open4group.com/wallpapers/1024x768/arvore-centenaria-11382.html