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quinta-feira, 26 de julho de 2012


A CAÇADA DO ÚLTIMO EXEMPLAR DE VEADO



Alguns colonos continuamente efetuaram uma intensa caçada, quando, com alguma fauna silvestre, completavam o prato familiar. A carência de carne, proveniente da criação, era motivo para empreender alguma caçada, quando alguma presa era abatida. A colonada, desta forma, durante aproximadas cinco décadas de colonização, sobrevivia com a mentalidade de vida, quando pouquíssimos moradores preocupavam-se com uma consciência preservacionista. Alguns pareciam achar inextinguível a abundância de fauna e flora, que mantinha condições de renovação.
Os animais, nos primeiros anos de colonização de Teutônia/Rio Grande do Sul/Brasil (1858 – 1880), existiam em abundância. Os exemplares, como antas, capivaras, cutias, preguiças e tamanduás, eram comuns, quando eram muitíssimo cobiçados pelos caçadores. Os carnívoros, como cachorros-do-mato, guarás, gatos-do-mato, jaguatiricas, onças e mão-pelados, eram abatidos como esporte, quando careciam de maior valor alimentício. As peles, na maioria das oportunidades, nem eram aproveitadas, quando convivia-se com o desperdício da fauna silvestre. As aves, como araras, ararapirangas, anambés, papagaios, pavões, tucanos, eram aprisionados com vistas de ornamentar alguns pátios coloniais. A variedade de cores e formas de aves da fauna brasileira, sempre exerceu fascínio sobre a colonada, que adoravam ter uma gaiola com aves.
As aves e os mamíferos, nos primeiros tempos, chegavam a frequentar os pátios dos colonizadores, quando as florestas mantinham-se próximas as moradias. Algumas espécies pareciam confundir-se com os animais de criação, quando também disputavam alguma sobra ou resto de alimento. Alguns moradores adoravam a companhia, quando não causavam maiores estragos ou prejuízos as plantações. O bicharedo, com as contínuas caçadas de alguns e devastação massiva da mata subtropical, tornou-se arredio. Algumas espécies esconderam-se nos confins da floresta, mas, mesmo assim, acabaram sendo perseguidas e mortas. Pouquíssimas espécies conseguiram sobreviver, quando eram extremamente xucros. Pode-se, entre outros, citar os cachorros-do-mato, jaguatiricas, mãos-peladas, tamanduás ou aves como periquitos, tucanos, anambés...
Outras espécies souberam adaptar-se ao novo hábitat, que praticamente acabou humanizado. Menciona-se exemplares como beija-flores, carruínas, joão-de-barros, quero-queros, tico-ticos ou ouriços, raposas, tatus... Estes conhecem uma acentuada renovação na medida da ampliação das áreas reflorestadas. Alguns ousados caçadores, viciados em caça, teimam em continuar o abate, quando atuam nas caladas da noite e nos finais-de-semana. Estes, em algumas áreas de mato, criaram trilhos, que revelam-se espaçosos caminhos. Algum remanescente, de espécie rara, costuma ser abatido, quando, na prática, deveria receber cuidado especial para sua multiplicação e preservação.
Os répteis, sobretudo cobras, sofreram um contínuo e incessante combate de extermínio, que jamais foi conseguido. Os temores foram muitos com relação as mordidas e picadas, que eram comuns nos primórdios da colonização. Diversas vidas humanas sucumbiram diante das picadas, quando careciam de maiores recursos medicinais; as distâncias a percorrer, numa emergência, praticamente reduziam as chances de uma salvação. As temidas cobras, como cobra coral, cruzeiro, jararaca, jibóia, eram abatidas continuamente com vistas de exterminá-las por completo. Estas, diante da mudança do hábitat, procuravam o refúgio dos brejos e das cercas de pedra, quando mantém-se como presença esporádica.
A Boa Vista Fundos, por volta de 1942, vivenciou um exemplo da voracidade dos caçadores, que, provenientes dos quatro cantos das localidades circunvizinhas, vieram com vistas de abater o último exemplar de uma espécie. Este tratou-se do último remanescente do veado-virá ou catingueiro (Mazana simplicicornis), que tinha migrado à localidade; encontrava-se há dias peregrinando pelas localidades próximas, quando vinha, com a cachorrada e turma de caçadores, sendo caçado. O animal, em meio ao desespero e instinto de sobrevivência, conseguia safar-se da morte, quando refugiava-se entre lavouras e matas. Alguns lavradores, em momentos, deixavam de denunciá-lo, quando desaprovavam a luta desigual; tinham-se encantado com a beleza da espécie de ungulados, que são bastante raros na fauna brasileira. O animal, no entanto, acabou dominado no cansaço, quando acabou abatido nas terras próximas ao Morro dos Staggemeier.
O autor do disparo fatal posteriormente vangloriou-se da façanha, quando teria colhido este precioso troféu de caça; uma obra rara para um caçador, quando havia inúmeros caçadores. Estes na sua reduzida concepção de mundo, jamais pensaram na conservação das espécies animais e vegetais, que seriam um patrimônio comunitário e universal. A consciência ecológica parecia ignorada, enquanto havia abundância de exemplares; adveio na medida da completa de valiosas espécies, que podem esconder uma imensa biodiversidade (para servir no combate a doenças e fonte de alimentos). O troféu de um momento histórico pode, no amanhã, ostentar-se como um absurdo ou exemplo de irracionalidade; a história da caçada do último protótipo de veado é um caso que demonstra-nos a relatividade das mentalidades e valores, assim como nossa crueldade com os seres vivos.

Guido Lang
Histórias Coloniais – Parte
Jornal O Informativo de Teutônia, p. 04
13 de novembro de 1996


Crédito da imagem: http://www.flickriver.com/photos/23630893@N08/4764848454/

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